quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Hora Colorida de Dormir

Aquela se chama Marina
Esta, Luiza se chama.
Uma tá de camisola
A outra tá de pijama

De verde tá a Maricota
De rosa tá a Luluca
A de verde parece doidinha
A de rosa parece maluca.

Depois do jantar
Escovar os dentes
Fazer xixi
Correr para a cama.

O pai vem ligeiro
Trazendo o encosto.
O livro de hoje tem
Historias para todo gosto.

Depois da leitura,
Cansada a voz,
Embrulhar as duas figuras
fantasminhas sob os lençóis.

Um beijo para cada dia do mês
Sem direito a apelação.
Mais um extra se sabem
Da pergunta a solução.

2004

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Barbeiro

Enfim tem fim o plantão de 36 horas. O movimento de fim de ano sempre aumenta com os cachaceiros que bebem todo o décimo. No mais as queixas de sempre: atestados, dores nas costas, diarreia, febre e dor de garganta.
Apesar da reclamação do colega organizado e chato, jogo a bata e a máscara usada sobre uma das camas e vou ao banheiro me trocar. O espelho reflete minha triste e quixotesca figura. A barba grisalha de três dias me aumenta a idade. Entro no carro e o sono atrasado reclama pelo motorista inexistente, meu maior sonho de consumo. Toco pra casa devagar, não quero fazer besteira no trânsito justo na véspera do Natal. No primeiro sinal fechado descubro uma barbearia de aparência simpática. O salão está vazio, mas uma voz grita lá de dentro : “Pode se sentar que num demoro nadinha”. Sento; a cadeira reclina com o peso do corpo e do cansaço. O cochilo vem fácil. Acordo com a navalha no pescoço. O homem atrás de mim manipula o instrumento sem cuidado. Aperreado, sob o peso do lençol, suplico-lhe que pare.
“Num se mexe, senão te corto a goela”, ameaça.
Pescoço hirto, imploro clemência e o porquê do ato.
“Doutorzinho safado”, ele fala por entre os dentes quase cerrados.
Olho no espelho e reconheço o bêbado que botei pra fora do consultório ontem à noite, pois exigia um atestado pra namorada que passara o dia na farra com ele.
“Agora tu vai me dar o atestado, filho duma égua, num vai?”
Gaguejo um “dou” espremido e aflito. A mão trêmula tira a caneta do bolso. Peço um papel em branco qualquer. Ele afasta a arma de meu pescoço e vai pegar o papel. De volta bate no meu ombro. “Acorda Doutor, são só dez reais”. Dou-lhe vinte e fujo aliviado.  

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Soneto da Casa Vazia

 A casa vazia zomba de minha dor.
Tento agrada-la:
Abraço-lhe as paredes,
Banho-lhe o chão com lágrimas.

Visto a melhor roupa;
Saio do caramujo.
Finjo fugir da ausência
tatuada na alma.

O ruído da rua esconde a solidão.
A moça inocente se oferece
Não sabe que sou homem incompleto.

Quando retornar,
Voltar à casa vazia,
Estarei mais triste e sozinho.

21/01/04

domingo, 4 de dezembro de 2011

Pai é Quem Cria

Chifre é coisa que botam na cabeça da gente! Todo mundo já ouviu isso, principalmente depois que Falcão se tornou astro do besteirol nacional, e o culto ao corno fez do par de chifres um espécie de patrimônio nacional. Segundo um amigo meu, escondo o seu nome para protegê-lo das amigas leitoras, “toda mulher tem alma de puta”. É claro que não concordo com ele, mas a verdade é que todo homem tem medo de chifre. E tem aqueles que não podem nem ouvir outro homem falar das qualidades de sua companheira. E o pior é que ela nem precisa ter tantas assim. Como diz um outro amigo: “Tem cara que tem coragem de mamar em onça”. Enfim, só escapam das cantada as surdas e as mortas. Noutro dia vi uma conhecida um tanto desabonitada com aquele barrigão e me convenci que afinal todos têm seu lugar ao sol e acabam encontrando sua cara-metade. Voltando a cornagem. O consolo de ouvir elogios à sua atraente mulher é saber que enquanto eles babam você usufrui do apetitoso material. Mesmo porque a angústia do medo de ser corno é inútil. Apenas Adão não teve este problema. Mas será que não foram impulsos edipianos as causas das desavenças entre o sacana do Caim e seu bobo irmão Abel? Deixando as especulações de lado, Adão foi um homem verdadeiramente feliz, pois além de comer a fruta proibida, no caso Eva, e não ter tido sogra para aturar, ainda viveu despreocupado em assuntos corníferos.
Preocupado mesmo é meu amigo Ricardo. Seu trauma é tal que já virou motivo de chacotas de todo mundo, afinal quem não gosta de pisar nos calo alheio. E não é que ele tem seus motivos! Sua esposa é um mulherão. Tanto que por onde ele passa os conhecidos põe-se logo a gritar: “Vai pra casa Padilha”. O cara vira uma fera e responde:
-         Ali só quem mete a mão sou eu!
Quando ela ficou prenhe (adoro esta palavra), tive pena do coitado. Sua alegria foi abafada pelo desespero de tanto ouvir perguntarem pelo pai da criança. O coitado quase perde a cabeça. A mulher cada dia mais rotunda e tranquila tentava acalmá-lo.
-         Oh Bem, quanto mais tu te irritas, mais eles curtem com a tua cara!
Tentava tomar consciência disso, mas não adiantava. Uma vez quase sai às tapas com um gaiato que se prontificara a comparecer com as fraldas e o leite do primeiro ano do bebê.
-         Pai que é pai tem que participar, né?
Coitado do Ricardo. Viu que o único jeito era se afastar da turma e deixar de freqüentar o barzinho. A gravidez foi se adiantando até chegar o grande dia. Fez questão de entrar na sala e assistir ao parto.
-         Quero ser o primeiro a ver o meu filho nascer, disse todo orgulhoso.
A emoção e o choque de presenciar pela primeira vez a um parto normal foram demais e ele quase desmaia na sala.
O Obstetra sugeriu que esperasse a mãe e o bebê no quarto. Chegando lá foi só alegria. Todos, inclusive alguns dos gozadores de outrora, deram os parabéns ao mais novo pai do pedaço. Abriram uma garrafa de espumante e brindaram a nova família. Logo chegou a mulher na maca com a pequena criatura ao seio. O Obstetra veio depois. Ninguém, a não ser Ricardo, notou os olhos vermelhos do médico. Respirou fundo, pegou o nenê e pensou:
“Pai é mesmo quem cria”.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Vernissage

Cheguei às 19h em ponto, horário estabelecido no convite. Minha mulher vive reclamando de minha alma inglesa que não se adequa a infalível impontualidade brasileira. Já passam das 20h e nada do evento começar. O anfitrião confessa estar esperando uma literária autoridade. Aproveito para fazer reconhecimento do espaço cultural onde, sem pudor de declarar minha ignorância, nunca botei os pés. Na fila para a exposição de Rodin estudantes uniformizados esperam em alegre algazarra a hora da próxima visita. As entradas do teatro, dos cinemas e do planetário estão vazias. Rodin monopoliza a cultura fortalezense esta noite. Tudo vistoriado, retorno ao espaço ao lado da livraria onde o colega Célio, bravamente rivalizando com o escultor francês, lançará seu primeiro livro. Minha ponta de inveja, escritor platônico e anônimo que sou, aumenta ao juntar-me à tão volumosa e qualificada plateia. A solenidade de apresentação do livro é breve e objetiva. Um bom produto não necessita de muita propaganda.  Começa o coquetel. Salgados, cerveja e refrigerantes matam a fome e a sede dos convivas que na maioria vieram direto do trabalho. Após uma curiosa panorâmica pelo salão, fixo atenção em um senhor que se destaca dos demais convidados. Recostado à vitrine da livraria, ao lado da saída das bandejas, não perde um garçom. Aproximo-me interessado na figura. Teço elogios ao autor que ele confessa conhecer “só de nome”. Pergunto se o tema do livro o interessa. Não particularmente, responde. Declara-se um frequentador assíduo do espaço cultural e apreciador de toda forma de arte. Num impulso mecênico dou-lhe um exemplar do livro, pois havia comprado vários para presentear os amigos.  Quando viro para ir embora ele me detêm pelo ombro e devolve o volume. “Tome Doutor, obrigado, mas não sei ler”, revela sem cerimônia. Desejo-lhe um sincero “boa noite” e afasto-me desconcertado, enquanto ele alivia mais uma bandeja. Muita vez esqueço que existe outra fome que não a do saber.  

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Velho Lavrador


Quem viveu ou passou pelo interior conhece este retrato:
Um velho lavrador sentado num banco do alpendre de uma casa de reboco, a face marcada de rugas, o chapéu de palha derreado na cabeça, a roupa herdada, amarelada de tão surrada, a perna abraçada, a havaiana fina, o calcanho roído, sobre o banco. Pita um cigarro de palha, o cachorro sarnento recostado por ali. No terreiro em frente da casa uma galinha do pescoço pelado no comando de seus pintinhos, um bode velho e um jumento tão magros quanto o dono. A caatinga reflete o dourado do sol. O calor amenizado vez e outra por uma brisa morna.  A cigarra substitui o barulho da enxada inútil nos tempos de seca. O olhar perdido procura no infinito uma gota de nuvem que nunca vem. Quem quiser pode parar, sentar por ali e sempre poderá ter um dedo de prosa, ouvir uma história dos tempos passados, dos bons invernos e das terríveis secas. Aprender como preparar a terra, semear um grão de milho ou feijão. É um homem simples e humilde que trata de doutor todo mundo que calça sapato, dirige um automóvel, ou mora na capital. Nem pensar em recusar o cafezinho feito na hora pra esquentar o colóquio.
Hoje, no caminho para o trabalho, vi um velho que me pareceu ser um velho lavrador tangido pela seca para a cidade. Estava sentado num banco de alvenaria, na pequena varanda de uma casa do subúrbio, na certa de um filho ou parente. O cigarro de filtro parecia estranho em sua boca. Nenhuma presença humana ou animal por perto. Tinha o olhar perdido, procurava um lugar no infinito. Via além da grade de ferro na frente da casa. A fumaça e o barulho dos carros e ônibus lhe eram indiferente. Estava longe. Uma lágrima solitária inundava o sulco da face pela certeza de que jamais reverá ao seu sertão.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ler x Escrever

Shakespeare leu em sua vida algo em torno de 14 livros, segundo artigo de uma revista, e escreveu sobre quase tudo. Esta informação mui me intriga, pois tenho lido muito ultimamente, pelo menos para o padrão brasileiro, e confesso querer e precisar ler muito mais. O prazer que um bom livro me oferece é incomensurável. É uma viagem pelo mundo do impossível, uma forma de voyeurismo, pecado que muitos praticam e poucos assumem. Ao ler, rio do ridículo alheio lembrando os meus vergonhosos defeitos. O que dizer então do ato de escrever? Parece-me que é como ler em dobro ou um exercício de imaginação ao quadrado. Escrever é me mostrar por inteiro num processo catársico que nenhum psicanalista consegue me levar. Escrever é me doar, me expor sem pudor e sem medo de parecer ridículo. Escondo-me por detrás de meus personagens, sou um covarde. Depois de muito ler me descobri carente, algo faltava nas linhas que percorria. Por mais que me identificasse com o autor, sentia sua desigualdade com meu eu. Escrevo para ocupar meu espaço, sou bicho insatisfeito que luta pelo direito de falar, gritar e ser ouvido, nem que a platéia seja eu próprio.