quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Enjaulado

 "Morrer é melhor que pensar", gritava um tosco capitão. 

Eclipse

...

O calor 

é parceiro do sol;

A lua uma dama

serena e fria. 

Me deslumbra

o contraste da noite

brincando mesmo 

de longe com o dia. 

sábado, 8 de agosto de 2026

Armas

A direita luta com as armas da ignorância, da mediocridade e da mentira, mas sempre com muita eloquência, na certeza de que será ouvida pelos tolos e incautos. 

Number One

Flávio era UM cachorro doidinho, que muito latia, mas não se fazia entender. Depois de virar quatro esquinas à direita, engoliu o próprio rabo e se deixou esquecer. 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Natimorto

Após o anúncio do nascimento do futuro primeiro intelectual de direita as ruas se encheram de vivas, hinos, bandeiras, dancinhas e muitos, muitos tiros para o ar. Mas a festa pouco durou, pois a criança sobreviveu pouco tempo. A autópsia revelou que seu coração tendia para a esquerda e seu imaturo cérebro não aguentou a realidade dos fatos. 

Pai 2026

Freud pouco exagerou ao pôr a figura do pai a frente de variadas idiossincrasias humanas. 

Perder o pai é quase como nascer de novo. O mundo parece que fica diferente e a gente ganha um protagonismo que não temos a certeza de saber exercer direito. Mas a vida é feita para todos e o caminho não é direto nem torto, apenas único.

Quando ele me deixou, fui escalado de filho a pai. A responsabilidade não pesou sobre os ombros, apenas me senti diferente, em outro nível, nem melhor nem pior. Perda sentida e singular, que não deixou dor, mas uma profunda saudade com o recheio do amor. 

Quando sento na mesa para contar e ouvir histórias, percebo a inexistência do tempo. A música se confunde com a memória. O real é o mesmo que o sentimento. As notas vibram no coração e os versos bailam na mais pura emoção.

A paternidade não pode, nem deve exigir, mas ser sentida com leveza, simplicidade, um monte de carinho, um pouco de paciência e muita satisfação, orgulho encabulado pelo que se ajudou a construir. 

Digo ajudou, porque penso ser quase uma obrigação deixar grande dose de autonomia aos pingos de amor que entregamos ao mundo. Um pai dito perfeito não dá espaço para a expansão plena da nova personalidade que se desenvolve desde o nascimento até o momento de deixar o ninho. 

O segredo é não querer, nem procurar, a gratidão dos filhos. Mas senti-la de forma subliminar de maneira espontânea e natural como se organiza o desmame que nunca é um adeus, mas uma contínua e insistente espera pelo amor que nunca se perdeu. 

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Manoel

...

Vagar o mundo

sem juízo

e sem rumo, 

sem roupa lavada,

sem prumo,

claudicando. 


Cada passo

um desafio,

ausência de sonho,

um desvario.


Calo a dor

que me carrega,

a luz do sol

que me cega,

o frio da noite 

que me renega. 


Ser só

é meu destino.

Meu suor, 

único carinho.

Não olho pros lados.

Conheço todos 

e nenhum caminho. 

domingo, 2 de agosto de 2026

Alegria

A alegria mora 
No inverno sem tino,
Mais para o norte 
Menos pro sul.
Longe do Ártico 
Vizinho do Equador 

Onde Calor rima com amor,
O suor se esconde do azul 
O desejo é escravo do objeto. 
Carinho é o Eu colado a Tu.  


sábado, 1 de agosto de 2026

Sombra

A sombra do infinito
Me lembra tanta 
E muita coisa que até 
Fica fácil esquecer.

Lágrimas não falam,
Suspiros não suplicam,
Carinhos se perderam
Em meras discussões.

O que o vento 
Não consegue levar,
As dores teimam valer
 
Coisas que não se pedem,
Trajetórias que ninguém
Ousa sequer entender.  



on the road

Seguindo sempre 
E quase sem rumo.
Roda no asfalto,
Balança que não
Reclama do prumo.

De pulo em pulo,
Salto aqui outro acolá,
Encontramos enfim
O que buscamos,
Sem medo e muito mar. 

Cada canto 
Uma canção,
Um grande encontro,
Outra nova emoção.

A chuva que turva 
O sol que incendeia,
O trânsito que irrita
A reta que instiga 
O doce esperado final 

E realizando desejos
De cidade em cidade,
Construimos sonhos
Concretamos amizades.






sábado, 18 de julho de 2026

Melancolia

A Melancolia do dever cumprido preenche muitas e todas as vidas e histórias experimentadas no correr de um tempo que não se fez sentir, mas deixou marcas e memórias de todos as cores e tons. Não prevejo a velhice, só a certeza de algumas dores nas juntas, um esquecimento aqui e acolá, pequenas falhas no que costumava ser habitual. Uma energia meio doida insiste em se imiscuir em meu juízo. Entender que a verdade de tudo é uma só: nenhuma!!! E só há uma maneira de explicar o sentido da vida: todas!!!

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Madrugada

A madrugada é meu lugar. A soletude do amanhecer me enternece e encanta. Faz ruído sereno em meu silêncio. Me revela um mundo sombrio,  de múltiplas cores e pleno de luz. É a hora do acordar, descobrir tudo de novo, sem sofrer pelo ontem e sem sonhar com o amanhã. 

sábado, 20 de junho de 2026

Entendimento

A vida nos entende tão pouco quanto consideramos ela. A brisa refresca a pele. Os vôos ensinam mais que mil palavras. Copos insistem na inquietude. Cheios e vazios se misturam numa sincera embriaguez. Água é tudo. Luas e planetas se alinham. E os impedimentos insistem em obstruir belos gols. Quando o sono nos vencer e os sonhos insistirem em nos convencer que a verdade habita um sincero e secreto desejo, o segredo é acordar na mais cordada fraternidade. 

terça-feira, 26 de maio de 2026

Ilhas do Mundo (Publicado na Antologia Sobrames 2020)

 Ilhas do Mundo


Mundo 

Cheio de ilhas.


Ilhas dentro de ilhas,

Por cima, em baixo. 

Ilhas que se misturam

Sob úmidos lençóis. 


Ilhas que se sonham

Continentes

Esquecendo que o

Mar as fez ilhas. 


Ilhas antes e depois, 

Sem tempo para 

sonhar mais que um 

Instante imenso de paz. 


Ilhas que se jogaram  

Ao infinito e de lá

Retornarão formosas, 

Mas ainda ilhas e mortais. 


Sonhos

Sonhos são objetos

invisíveis, se é que

existem para além 

do sono.


São mensagens

criadas para enfeitar

um futuro de incertezas,

como se o hoje 

não bastasse. 


São viagens a um 

mundo de infinita 

imaginação impossíveis

de realizar. 

terça-feira, 19 de maio de 2026

Tanquinho

 Quando alguém descobre da minha inveterada apreciação da loura gelada, é quase automático a admiração por minha tão inócua barriga. Como se uma coisa levasse a outra; como se ser tricolor me forçasse a secar os alvinegros. O certo é que apesar dos elogios por me manter sempre em forma, não nutro uma relação de paz plena com minha adiposidade abdominal. O desejo de subtraí-la com um puxão peremptório e efetivo só perde para a eloquência inebriante de um copo borbulhante, encimado por branca espuma. Botar a culpa na bichinha é de uma covardia indefensável e que não ouso fazer. Mais fácil culpar a colher a mais de farofa de linguiça, o indispensável caldo de feijão, o tijolinho duplo de chocolate na sobremesa que fugir da irrealidade do torpor da cerva. Afinal barriga tanquinho é para quem não tem torneira que preste.  

Suspiro

 Quando a gente menos pensa parece que acabou. Não há sentido em explicar o que ninguém quer ou vai entender. Um suspiro fala mais fundo que qualquer explicação. Reféns da impura verdade, damos passos tortos, escolhemos o lado invariavelmente errado, para terminar no que podia ser, sem o poder de tirano destino, mas solenes escravos das nossas decisões.

Manias

Manias se fazem sem querer. 

Têm um que de instinto

que fingem desconhecer. 

E quando menos se espera

foi só um doce e puro prazer. 

Criação

O acaso é

um copo de vidro

prestes a se quebrar. 


Pode frustrar uma 

sede ou fazer

uma semente brotar.