Para os náufragos incautos e desesperados que buscam salvamento em barcos cheios de buracos eu sugiro que permaneçam sobre o cuidadoso convés da pesquisa científica. Melhor que pensar em possíveis curas é investir no amor e na união, nos bons hábitos alimentares, na prática moderada de exercícios físicos, no repouso sem exagero, na boa e prazerosa leitura, na meditação, no abraço em quem está no barco com você, no aperfeiçoamento de suas habilidades culinárias, na manutenção do emprego de nossos empregados, nas práticas higiênicas que a gente não tinha antes, no consumo controlado da televisão e tantos outros vícios. Discutir leigamente novas possibilidades de tratamento de qualquer doença traz mais efeitos colaterais que benefícios e serve mais a discussões políticas do que científicas.
Um texto não lido é como um amor não correspondido. Neste espaço quero compartilhar um pouco de meus escritos, dar e pedir sugestões de leituras,filmes, músicas e ...
quinta-feira, 9 de abril de 2020
terça-feira, 7 de abril de 2020
Conservadores
É natural à consciência conservadora uma aversão a mudança. Por isso tanto dificuldade em entender o inusitado. O que espanta os especialistas ao se depararem com algo de comportamento inabitual, é tratado como algo corriqueiro, apenas um ponto pouco fora da curva, pelos que consideram que não há, nem deverá haver algo de novo no front. A neurociência ainda não tem resposta se a atitude conservadora já vem escrita nos genes ou se é determinada pelo ambiente. O provável é que seja os dois, e sua expressão dependerá do grau de exposição à capacidade de duvidar e de insurgir contra o status quo. São muitas as histórias contadas sobre um jovem que não se íntegra a seu cotidiano e quer fugir para um outro mundo, o que o isola dos colegas da mesma idade. O final sempre tem quatro possibilidades: ele foge e se dá bem ou mal, não foge e se dá bem ou mal. A discussão é sempre tão repleta de senões que fica difícil se posicionar como conservador ou revolucionário. O mais certo talvez seja manter os pés bem fixos no chão para que uma brisa não nos leve facilmente, mas não deixar de abrir as asas quando os ventos nos quiserem levar para o infinito das possibilidades.
domingo, 5 de abril de 2020
Obediência Social
Vivemos o dilema entre a Desobediência Civil dos Anarquistas e a Obediência Social imposta pela partícula viral da vez. Em 1995 o mundo foi apresentado ao Ebola, que matou 80% de seus hospedeiros, mas que ficou restrito ao pobre continente africano. No enfrentamento ao Novo Corona, enquanto uns poucos governos apostam no Isolamento Vertical, a maioria impõe uma radicalização da quarentena, muitos depois de terem experimentado com consequências catastróficas a fórmula menos drástica. Só quando pudermos contabilizar nossas baixas, quer pelo vírus, quer pela fome e desemprego, é que poderemos tirar conclusões que nos ajudarão em futuras crises. Por hora, o melhor é obedecermos o que o conhecimento científico nos indica como melhor caminho para a sobrevivência produtiva da sociedade, e nos ensurdecermos aos impropérios de um insano que mal sabe contra quem está lutando. Os números analisados a luz da Epidemiologia nos informa que o pico da curva está prestes a acontecer. A altura dessa montanha depende do número de nossos passos.
Crise em Transe!!!
O desconhecimento da dinâmica da economia neoliberal financista e globalizada faz com que muitos empresários, peças imprescindíveis ao Capitalismo produtivo, arranquem seus cabelos diante de tantas portas fechadas, por tempo não determinado. Um fato pouco conhecido é que o real valor do dinheiro não está estampado no seu papel, mas na confiança que o Mercado tem no poder de sua troca por mercadorias. Outro dado estarrecedor é que o estoque de contratos financeiros emitidos atingiu em 2012, cerca de 14 vezes o PIB anuam global(Andy Haldane, The Money Forecast, new Scientist). Imagine como não está doze anos depois. O dinheiro que rola nas bolsas e fundos de aplicações não encontra lastro na economia real. O mercado se alimenta de confiança, não de arroz com feijão. A pirâmide financeira dá resultado por tempo cada vez mais curto. Antes as crises econômicas aconteciam a cada 40 anos ( 1890 -1930 - 1970). A que se iniciou em 2008 ainda faz estragos nas economias de todos os países. O Novo Corona veio potencializar essa crise. Será que estamos preparados para viver do básico para sobrevivência: ar - comida - água? Dificilmente voltaremos para uma economia baseada no escambo, mas é certo que a amplitude do lucro, principalmente do dinheiro que se auto multiplica sem o aporte na economia real, deve ser repensada e redimensionada, para que as inevitáveis crises se percam na dimensão temporal da história.
Isolamento Conjugal.
Nunca foi tão necessário se respeitar o ISOLAMENTO. Vivemos mais uma vez o efeito colateral de um estilo de vida ultra conectado. Se não bastassem as barulhentas multidões que se aglomeram em shoppings, shows, feiras e raves, o mundo virtual devassa nosso silêncio interior. Quase não conseguimos mais ouvir a nós mesmos; a rede nos fisgou e, tal peixe que se debate em vão, viramos o prato do dia a ser vendido e consumido por preço incerto no mercado global. Ontem quase não liguei a TV, exceção feita para conferir a quarta temporada de "Casa de Papel". De algum tempo tenho gasto as horas depois do jantar assistindo filmes e séries com minha mulher. Este novo hábito diminuiu a densidade de leitura diária, substituída com ótimas histórias, principalmente as policiais investigativas que nos pegam vez ou outra de mãos unidas, trocando carinhos. Uma reportagem me informou que em tempos de isolamento social aumentou o número de casos de violência doméstica. Isso me lembrou a conhecida pergunta de QUEM eu levaria para uma ilha deserta. Com certeza já fiz minha escolha, com ou sem Internet.
sábado, 4 de abril de 2020
Voltar ao Normal?
Qual a definição de Normalidade? Podemos voltar à vida Normal depois de um tempo doente, em férias ou só porque resolvemos dar um tempo, ou mesmo por imposição de governamental? Me parece que não podemos retornar ao que nunca existiu. Ontem eu não era o que sou hoje. Até meu peso mudou, encolheu, e minha relação com o outro é diferente da que foi no segundo que o ponteiro comeu. Somos máquinas mutantes, tal os vírus e suas idiossincrasias involuntárias.
Voltar ao trabalho não pode ser considerado voltar ao normal, com tantas ruas vazias, o posto fidelizado fechado e me pegando de tanque quase seco e o cruzar com mascarados legais ou não passeando sozinhos, cada um com seu motivo, no início de um dia nublado, mas sem promessa de chuva.
O normal anda longe de se impor nos corredores do hospital, a começar pelo setor de rouparia, que sequer sabia a localização, e onde me deparo com funcionários ainda tontos pelo inopinado das circunstâncias. Encontrei um abraço de boas vindas tolhido pelo medo do contágio e percebi que as relações também mudaram. Um medo escondido de transmitir e/ou receber, mesmo que involuntariamente, um mal secreto que ninguém sabe ao certo se carrega. As segundas orientações sobre a nova rotina, o novo normal, me chegam pelo colega que está deixando o estar. É assim, é assado. Isso pode, aquilo ainda está indefinido. Mais dúvidas que certezas, quase sempre é assim. De roupa trocada vou direto ao meu setor. Ser saudado com a afirmação sincera de que fizera falta, dá um consolo e força para esquecer que preferiria ter ficado em casa, recolhido e protegido da tempestade que nenhum barco quer enfrentar. Só quando me encontro irreconhecível, como um recém nascido que acabara de nascer, e tudo fosse novidade, principalmente minha "tosca" e mascarada presença, é que pergunto o que mudara no mês que estive ausente e o que a pandemia trouxera de novo à rotina do trabalho. Quase nada. Ainda bem, que bom, menos mal, que chato, verdadeiro absurdo!!!!! Fui mudando do otimismo para a indignação quase que como descendo degrau por degrau no entendimento de que tudo mude para nada mudar. O normal continua se impondo à nossa percepção de mundo. Nos acostumamos tanto com o habitual que mal percebemos as mudanças que se impuseram na gente e no mundo.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Hábitos
Nenhum conceito e hábito tem geração espontânea, é imanente. Eles nascem de uma necessidade tanto nossa como de outros. Milhares de humanos desconhecem o chocolate, enquanto outro tanto dá a vida por uma dentada a mais no que chamam pedaço de paraíso. Somos depósitos ambulantes de vícios, de pratos e "trapos", de mantras e pompas, de conselhos e de considerações. Somos prisioneiros daquilo que "julgamos"ser bom para nós, e do próprio julgamento. Desconfio que não nascemos assim ao assistir um bebê ao seio materno e sugando com gosto algo tão sem gosto, que me ponho a arguir, não a necessidade fisiológica do sal e do açúcar, mas o prazer que eles realmente nos proporciona. Já ouvi de alguém gabaritado que o açúcar aumenta a Serotonina e a sensação de prazer, mas não são infinitos os que o mesmo o fazem, dependendo inclusive do indivíduo que o procura? Os selvagens que fomos um dia se alimentavam do que encontravam, não faziam escolhas quando a questão era sobreviver. Não faziam cara feia e de nojo diante uma cenoura( será que já existia essa espécie no mundo vegetal) mesmo que meia murcha. A descoberta do fogo expandiu as possibilidades de escolha e aumentou a biodisponibilidade de energia a nossa disposição. Deve ter sido aí que surgiu a obesidade. Deve ter sido um pouco depois disso que passamos a ser seletivos. Hoje somos reféns dos nossos gostos, não experimentamos o que nos parece estranho ao habitual. Será que precisaremos retornar às cavernas para entender que tudo é vida, tudo nos liga, tudo deve nos confortar?
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