sexta-feira, 6 de novembro de 2020

Trumpeço

Quando você abdica da possibilidade crítica de estar errado, de aceitar que não é majoritário, muito menos unânime, em prol da defesa renhida de concretos conceitos, perde a intemporalidade histórica e se insurje contra o equilíbrio evolutivo estável da natureza. Viver não é fácil, mas é só o que temos. O que sobra são lembranças. Cortesia e tolerância ganham entendimento quando se transcende a discutível qualidade altruística, e busca proteção na acolhedora intenção humana da reciprocidade. "Não te faço mal por ser bom, mas para que você não me trate mal em futura oportunidade". Não é mero jogo de toma lá dá cá, como gritam os radicais de ambos os lados, mas uma fórmula segura de convivência "democrática" e civilizada. Viver uma vida só de glórias é própria dos lunáticos. Enquanto muitos destes seres de outro mundo bradam seus impropérios, soltos pelas veredas terrestres, uns poucos buscam se  apropriar de palácios e tronos feitos para proteção e conforto de todos. Um tropeço machuca um dedo. Um trumpeço dá um pouco de luz à desesperançada humana espécie. 

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Pássaros Escondidos

...

A chuva

Cai fina e mansa,

Sem pressa

De molhar o mundo.

 

Os pássaros,

Escondidos nas folhagens,

Reclamam do frio,

Ou estarão amando?

Sim e Sim

 ...

O dedo me dói

Ao contato das teclas

Que não clamam repouso.

 

Quero me calar,

Parar de pensar,

Dormir um pouco,

Mas o sono é vencido

Pela inquietude da expressão.

 

Sonho com um mundo

Onde tudo se resuma

Ao silêncio.

 

Onde não seja necessário

Mais que duas palavras

Para tudo dizer:

Sim e Sim.

 

Porque nada mais

Desumano

Que a angústia de

Declarar-se

Culpado por ser feliz.


Ausência

 ...

Ausência,

Palavra tola e vil

Que não encontra sombra

Sob seu são próprio til.

 

Porque teu nome

Não pertence ao passado,

É presente contínuo

Sob a égide dos genes

De onde tudo nasce

De onde tudo vem.

 

És a infinitude do carinho

Necessidade imanente

De quem vive sem

Sofrer com o destino.

 

02.06.12


Breu

 

...

Ela se foi em silêncio,

Sem medo de me ferir,

Sem revelar seu segredo,

Sem saber aonde ir.

 

Partiu solene e desnuda

Deixando tudo de seu.

Levando somente o desejo

Que iluminava meu breu.

Exagerado

 

...

Não sei escrever

Sem rabiscar,

Ler sem pensar,

Dormir sem babar,

Sorrir sem rasgar.


Exagerado

É o que "fingem" que sou.

domingo, 1 de novembro de 2020

Tolice

Amanhã vou querer dormir. Escapar da realidade que jamais deveria ter sido sonhada. Caminhar em passos lentos e medidos por trilhas e veredas que se insinuam, prometem mistérios, deslumbram doces e bárbaros sabores. Cheirar entranhas conhecidas e descobrir delícias despudoradamente escondidas. Cair no céu e se saber pássaro: inútil e divino. Se realizar na ausência das pretensões e se descobrir tão pequeno quanto o mais esquecido dos deuses gregos. Conhecer a eternidade do momento e se sentir mais feliz que quando se tinha cabelo e nenhuma dor nas juntas. Ter nenhuma certeza ou só a de que ser feliz nunca foi nem será obrigação, mas só uma mistura de tolice com uma inocente ilusão.