terça-feira, 17 de novembro de 2020

Ódio

Sempre desconfiei do ódio desmedido. Ele sempre esconde algo indizível, o que se tem pudor de revelar, um preconceito vergonhoso que se esconde por trás da indignação sem razões proporcionais ao tamanho da revolta. Se procurarmos desvendar o que motiva um ódio declarado descobriremos traumas profundos, quase sempre de natureza sexual ou de perda significativa do status. Ninguém quer ficar por baixo, muito menos descer do pedestal onde um dia se exibiu orgulhoso.
Acumulei poucos objetos odiosos em minha não tão curta vida, e já "quase" não os posso numerar. Penso que consegui assumir meus erros e ter encontrado meu aconchegante e próprio lugar no mundo que nem sempre me quis e amou, mas nem por isso conseguiu semear e colher, da árvore do meu viver, os frutos amargos do ódio. 
fb

Mero Absurdo

Quando te vi
Pensei que a vida
Não tinha mais fim.

Sorrir para o absurdo
Virou mero exercício
De quem busca na ausência
A mais tola razão de existir.

O carinho que não se
Multiplica, muito menos
Se divide entre o que há
E o que poderia existir
Esta condenado a ser
Somente o que se aceita, 
E quase nunca o que 
Se quer.

sábado, 14 de novembro de 2020

Saliva

A luz que me brilha
Não pertence ao 
Mundo dos conceitos.

Concepções ultrajam 
O meu entender e
Não me acendem o desejo. 

Gosto da saliva 
Que me lambe,
Muito mais do que
A boca que me fala.

O suor de quem 
Trabalha me inspira
Pouco da divindade
E muito do prático 
Existir. 

(fb)

Sobre o Viver

Viver é boiar nas águas do tempo.

O único jeito ruim de viver é pensando que é para sempre.

A ilusão é a maneira mais nobre e tola de se viver e de se sentir.

Sobreviver é uma forma de tortura. 

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

Feminino

Quando eu quero,
Quero muito.
Nada de poucos desejos,
Sem longos beijos de língua.

Quero o mundo,
Mais do que minto.
Pouco do que me comove,
Muito do que me míngua

Quero a voz que não 
Me escuta.
O paraíso que não
Me quer. 

A vida num cisco de homem,
No todo esplendor 
De toda mulher. 





sábado, 7 de novembro de 2020

Emoções

No entendimento do que há além da pobre razão está, a mesmo assim discutível, possibilidade de nos realizarmos como seres minimamente viáveis. Olhar para os lados, ou dobrar o pescoço para o que um dia se foi, se tornou confortável alternativa diante o incerto futuro. Como escapar dos que prometem as glórias do passado? O imediatismo da necessidade exige soluções rápidas e alimenta o profícuo surgimento de discursos tão fáceis quanto vazios. Na força da emoção reside o poder dessas criaturas que se alimentam de vento e que expelem discursos tão densos quanto doces suspiros. Navegando pelos mares da incerteza é quase lógico se duvidar da realidade dura e imparcial da bússula, e o surgimento de teorias terraplanistas devem ser consideradas como sinal de desesperada tentativa de se descobrir como entidade capaz de duvidar de tudo que não se consegue entender. Ao tentarmos racionalizar a emoção abdicamos da capacidade de tolerar o que nos é estranho, e condenamos ao esquecimento a maravilhosa possibilidade de sermos diferentes. 

Reflexão

A palavra,
Uma vez dita,
Perde o dono,
Vira coisa comum
Do mundo. 

O sol já anda alto
E gotas de chuva, 
Alheias ao meu
Necessário sono, 
Enfeitaram o vidro
Da varanda que 
Parece chorar de
Saudade.

Acordo insone
Para mais um dia
De doce ausência 
E de esperançada
Reflexão.eflexão.