quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Bipolar

 

Vivo dividido

Entre dois mundos.

Um que não me quer

E outro que renego.

 

Quando eu grito

Fingem-se de surdos.

Quando pedem minha atenção

Brinco de ser cego.

 

2011

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Casa Caverna

 A casa é o máximo refúgio onde se é tudo e ao mesmo tempo ninguém. É no espaço privado que revelamos o nosso melhor e autêntico eu, não temos que negar ou doar, mas somente ser o que queremos ou pensamos que devemos ser. A casa é a prisão voluntária - trazemos sua chave no bolso – e também o castelo onde reinamos esquecidos e ausentes de um mundo supostamente real. Durante esse ano nunca foi tão comum encontramo-nos em casa. Fechar a porta na sexta a tarde e só abri-la na segunda pela manhã. Ligar para o amigo dos bares de outrora e descobri-lo sereno e sozinho com seu copo de cerveja na mão, ouvindo sua música preferida e esperando ansioso pela nossa ligação. As vezes dá uma agonia, e ansiamos por respirar o ar impuro da rua, ouvir vozes ruidosas de outras gentes, olhar para o lixo que se acumula nas esquinas que viraram entulho do que ninguém mais quer. A casa virou nosso cinema da quarta a noite, nosso happy hour de toda sexta, nosso futebol do Sábado a tarde e o restaurante do Domingo em família. Pode até parecer estranho, mas o fato é que finalmente voltamos a nossa caverna, onde nos protegemos das intempéries do tempo e dos bichos papões que sempre alimentaram nossos medos e aterrorizaram nossos sonhos. O inusitado do nosso momento é o tamanho do nosso inimigo de hoje, infinitamente minúsculo e paradoxalmente tão temível. Ficar em casa e longe da invisível e mortal partícula viral virou uma missão nada impossível, para quem consegue conviver consigo mesmo e entende que não estamos sozinhos no mundo. 

Bom Senso?

Sempre tive desassossego por qualquer tipo de atividade burocrática, embora reconheça que as normas escritas são tão essenciais quanto as não registradas no impessoal papel. A burocracia da lei é a forma mais segura e democrática de se estabelecer a normatização do que é permitido ou não em uma sociedade. Infelizmente, como quase tudo na vida, possui efeitos colaterais, especialmente quando se erra na dose. As normas consuetudinárias, não definidas em lei,  refletem a cultura e os valores éticos e morais da sociedade, e mudam conforme os ventos e realidades históricas. Dito isso, venho aqui revelar que um dia já fui chefe do meu serviço. Como homem de ação, investia quase todo meu empenho na atividade prática do setor sob minha responsabilidade e condenava a segundo plano os atos que se resumiam a caneta e papel, fato que me fez cometer confessados erros que fiz questão de pagar antes que os juros ficassem exorbitantes e impagáveis. O que menos gostava eram das reuniões com a Direção e os Chefes dos outros setores. Embora a Diretora fosse minha colega e muito minha amiga pessoal, nunca suportei sem impaciência sua prolixidade no encaminhamento das ditas reuniões. Mas foi numa delas que aprendi uma lição sobre normas não estabelecidas. Num dado momento daquela fatídica reunião pedi a palavra e diante do problema em pauta apelei para o BOM SENSO como solução lógica e natural para a questão. Foi quando o chefe de outro setor, de quem guardava não pequena antipatia, cortou minha palavra e argumentou em português duro e simples, que apelar para o tal do Bom Senso era desconhecer a natureza humana. Se todos tivessem, o mundo seria uma maravilha, e ponto final. Fechei a boca, assinei em baixo de sua manifestação, e nem tive coragem de sair da reunião que se prolongou por longas e burocráticas horas. Nem lembro o que ficou resolvido, mas isso não tem nenhuma importância. 

sábado, 12 de dezembro de 2020

Besteira

A gente é feito
De fazer besteira.

Poder andar
Pela trilha,
E preferir
Correr pela beira. 

Saber 
múltiplas verdades,
E pensar de 
Uma só maneira. 

Olhar a
Vastidão do tudo,
E não ver nada
Que se queira.

Colher rios
De Riquezas, 
E nenhuma rosa
Que se cheira. 

A gente é feito
De fazer besteira. 

Quando não se 
Está olhando 
Para trás,
Aponta a vontade 
Para um horizonte
Infinito.
Mal se lembra
Que a felicidade 
Pode estar em colar 
Ombro a ombro
E descobrir que a 
Irmandade é o reduto
Do que há de mais bonito.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Panos e Peles

Os panos que me 

cobrem são só isso: 

os panos que me cobrem. 

Sou feito de carne e osso,

pele e pelos; matéria dura e macia;

tão pura quanto encharcada

de ilusão e de drogas:

umas líquidas, poucas gasosas. 


Os panos que me cobrem

escondem as rugas e mazelas, 

cicatrizes e dobras 

que ninguém de deu,  

e que cultivei na deliciosa,

quase que silentemente,

na orgia das curvas que andei. 

sábado, 5 de dezembro de 2020

Valoroso Pessimismo

O voluntário sofrer é o desejo não revelado e subliminar de quem se insurge contra a real e sedimentada normalidade da suposta razão humana. O que resta senão um valoroso e combativo pessimismo? O ardor do combate e sua dopaminérgica consequência é o sobra de uma luta sem esperança de vitória. O soco que se dá no oco do vão do inimigo que se esquiva da luta, por contar com a inequívoca certeza dos pontos garantidos na decisão dos jurados, nunca é em vão. Ele serve ao entendimento do que deve ser feito, e nunca a resignação diante de uma luta injusta e inútil. Muito se fala em felicidade, e quase nada em atitudes. A fé que redime é a mesma que estagna. Se querer tivesse a força do fazer, qualquer boa intenção seria uma grande ação e ninguém seria obrigado a pedir perdão, nem um pouco de comida. 

sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Desigualdade

O entendimento conceitual de que "eleitos e oprimidos" sempre fez parte da "coerência" histórica é a principal justificativa para a morosidade com que essa diferença seja combatida e tratada como anti natural. A proposta evolucionista teria dado um caráter científico para tal realidade, afinal quem desconhece que a história é feita de vencedores e vencidos e contada pelos primeiros? Os que interpretam a teoria de Darwin desta maneira esquecem que inexiste a proposição do conceito da exploração do outro, mas simplesmente uma luta por espaço e sobrevivência. Felizmente, poucos são os que defendem com fervor a crueldade como forma de tratar os que não tiveram chance de escalar os " picos da gloria" econômica. A história do século 20 nos ensina que a proposição de uma sociedade de bem estar social no mundo ocidental foi conquistada após uma grave crise econômica entremeada de duas grandes guerras mundiais. O fato de haver uma opção socialista estatizante a rivalizar com a noção capitalista de um mercado livre teve uma influência significativa e notória. Há a suspeita de que esse período dourado de melhor entendimento entre os humanos tenha sido mero acidente ocorrido em área restrita e européia do globo terrestre. A oposta suspeita mais otimista é de que vivemos um momento histórico de crise economico-existencial que nos catapultará a um estado de maior equilíbrio e harmonia. Particularmente torço e luto pela última, mas confesso meu pessimismo quanto a vitória da lógica, que exige uma equanimidade pelo menos razoável entre os individuos, sobre a emoção quase religiosa que nos diferencia aos extremos entre criadores e criaturas.