terça-feira, 10 de maio de 2022

Adeus

Não há como negar que foi bom. A ideia da possibilidade do impossível soaria tão falsa, quanto indesejável. Foi o que deu até onde deu para ser. Olhando para o antes, dá para entender que nada  existirá menos em um amanhã sem mim. O universo é tão meu quanto da formiga que esmaguei sem querer, enquanto caminhava olhando a nuvem que se fez chuva bem longe de um último e frio Verão.  

Empurrão

Tenho um prin(ecipício)cípio:
O direito é inconteste, 
Até à egolatria.

Basta um empurrãozinho
E a vida segue viva
Noite que vira dia. 

sexta-feira, 6 de maio de 2022

Muitas Mães

Mães, pensando bem,
É uma só. 

Aquela que chora escondida
É a mesma que vive a sorrir.

Se entende mais de se doar,
É certo que precisa pedir.

A perdida nos sonhos
Pisa firme na realidade.

Pois mãe é uma só,
Não tem forma nem idade.

Mãe são muitas 
Em uma só.

Conhecem os desejos,
Julgam plenas de dó.

Justiça e perdão 
Atados num único nó. 

Mãe é a unidade
Que corrompe o universo 
Do que se quer.

É o desejo incontrolável
Ao retorno do aconchego
Do calor da primeira mulher. 


domingo, 1 de maio de 2022

Amigos

Amigos são metais
Preciosos que 
Se medem 
Pelo ouro. 

Não têm peso, 
Pois são leve 
E suaves como
O mais fino couro. 

Riem fácil
De qualquer besteira.
Tocam a música 
Que a gente gosta,
Contam as histórias
Que precisamos
Ouvir. 

Um abraço só
Não abarca sua 
Amplidão, 
Mas serve tão somente
Para nos unir 
O coração. 





sexta-feira, 29 de abril de 2022

Anunciação

Crônica de uma Crise Anunciada. 

Muito se fala de "Amor nos Tempos do Cólera" ou de "Cem Anos de Solidão", mas para mim a melhor obra do Imortal Garcia Marques é "Crônica de Uma Morte Anunciada". Tento esquecê-lo na estante, mas me é incontrolável o retorno a está obra que resume e retrata quase tudo que teimamos em reviver em verdadeiro moto continuo, dia após dia, ano a ano, década atrás de decada. E por que teimamos em aceitar uma realidade que já era certa no passado? Quando todos os elementos se somam e se projetam declaradamente em determinado rumo, parece ser inexplicável como nenhum dos atores do palco tome posição contra o próximo e fatídico ato. O crescente desmantelamento do serviço público  pediátrico não poderia dar em outra coisa senão o caos. A entrega de grande parte nas mãos das Organizações Sociais, resultado da suposta e insistentemente propalada incompetência do setor público para cuidar de quase tudo, incluindo a saúde, ainda não carimbou resultados. Quem como eu há trinta anos convive com a dita burocracia pública, não constata diferença quando imiscuido no universo das OSs. Os Pediatras foram "expulsos" dos Postos de Saúde. Os serviços de emergência pediátrico, mesmo os privados, foram aos poucos desaparecendo por declarada inviabilidade econômica, e nas Upas a pediatria foi entregue nas mãos de médicos sem a especialização necessária - é claro que há exceções. Como Gabriel, um outro Anjo da Anunciação, prevejo tempos difíceis para a nossa luta pelos pequenos. Os antibióticos começam a se mostrar incompetentes para vencer as resistentes bactérias já acostumadas ao tanto que se usa indiscriminadamente. A cobertura vacinal sofre pavorosa retração diante da desinformação baseada no achismo e na falsa liberdade de opinião e de direito individual. A pediatria está perdendo a poesia para se entregar ao tecnocracismo, ao mundo dos exames mandatórios. Deixamos de escutar e auscultar para ver através dos perigosos raios X. É óbvio que a tecnologia veio para nos ajudar, mas não para nos tornar reféns dela, muito menos para conspurcar os inocentes corpos. Volto vinte anos atrás e me vejo prevendo tudo isso. Não me absolvo com o argumento de ter tentado lutar contra a tragédia anunciada. Santiago Nassar não poderia ser salvo, apesar de ninguém ter desejado sua morte. 

domingo, 24 de abril de 2022

Encontros

Cacos de gotas,
De chuvas 
E de Chivas.
De cervas e nervos.
De contos 
E inúmeros cantos,
Que se fossem 
Possíveis, fugiriam 
Para o improvável 
De tantos e inúmeros 
Encontros.

sábado, 23 de abril de 2022

Pisada

Exercito o silêncio
Dando preferência ao ouvir,
Não para entender 
Ou julgar, simplesmente 
Para vislumbrar e 
Quase me espantar
Com a maravilhosa 
Diversidade dos seres 
Humanos ou sobrenaturais. 
Deuses me encantam 
Tanto quanto a formiga 
Que esmago numa 
Pisada sem dó.