terça-feira, 10 de junho de 2025

Energia

 Depois de pintar

o céu de azul, 

flertar com as nuvens,

e instigar o labor das plantas, 

o sol beija calorosamente 

a terra que o seduz. 

Veredas

Sonhando alto,

passeio com as nuvens.

De pé no chão

sou comido pelas formigas.

Se há veredas no meio,

todas são minhas inimigas.  

Seca

 Chuva no solo certo

seria um presente de Deus. 


Calor e dor rimam

aqui em baixo, na Terra. 


Não pertencem aos 

desígnios dos céus. 

Covas

 Os passos são 

curtos para 

justificar os destinos. 

Sorrisos impossíveis, 

carinhos perdidos

nas entrelinhas 

entre o querer e o poder. 

A cova que nos espera,

chora a teimosia do 

insuportável respirar. 

quarta-feira, 28 de maio de 2025

Defesa

Abdicar da simplicidade de uma cerveja antes do almoço é quase como desistir da doçura da vida. Enquanto se ouve a frigideira chiar na cozinha, se examina sem dor as intempéries do mundo das ideias e dos fatos. Para que sofrer sem analgésico legal? 

A dor que não preenche uma mínima alma não tem permissão de se fazer sentir. Toma-se um gole bem gelado, arrasta-se tudo que cabe na garganta e joga-se ela fora num sórdido e único escarro. 

Se pedisse para sofrer, não seria assim, jeito bobo, sem motivo aparente, besteira em forma de gente. Sofreria de fato completo, peito aberto, coração sem desculpa, alma plena de pecado, orgulhoso de cada um. Minuto em que se exalta a veracidade de cada incompreensível destino. 

Há lapso incrível entre o que se deseja e o que se entende ser. Os pingos se chocam, as vírgulas carecem de razão, a gramática se embaralha numa modesta intenção de originalidade. Há um terrível anseio de sempre mais na concepção inefável da imortalidade. 

terça-feira, 27 de maio de 2025

Templo

Abrir portas e janelas,
deixar o tempo correr 
por toda a casa,
da sala à cozinha. 

Só não deixar que 
entre no quarto: 
templo sagrado 
dedicado à pequena morte
e ao grande amor. 

sábado, 24 de maio de 2025

Pronto

O chafaris secou,
Sei nem de que fonte.
Desejo que encontra
Seu impreciso fim.

É preciso descansar.
Deixar para outras ideias
A imagem imaculada
Da eternidade e imaginar 
Que a beleza está na 
Tão própria existência.