quinta-feira, 16 de agosto de 2018

...Bobagem

...
Cansado de ser infeliz
Abdiquei da alegria alheia
Em prol de um sol ameno
e uma brisa com cheiro de paz.

Pus um quase mundo inteiro
na lixeira do prescindível,
Arrumei uma mala pequena
E tomei uns dois goles a mais.

Buscando um caminho possível,
Não vi sincera esperança na dor.
Cada destino é infinito,
Bobagem olhar para trás. 

quinta-feira, 24 de maio de 2018

...Inominado

...
Aqui não há nomes, só sonhos, buscas e solidões. Passos, já cansados, se escondem nas sombras das janelas fechadas, no brilho que o sol não quis doar, na dor pulsante do espinho na planta do pé. Não fugir é quase o que resta; um esboço de sorriso é o muito que basta. Mudez entre vozes que se mostram; não há paz, nem temor, mas repouso suado, lágrimas que se misturam e se perdem na brisa nascida num mundo escondido, perdido na ilusão do céu. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Sem Chão


As orquídeas não possuem raízes fixas na terra, são exiladas no mundo das plantas que absorvem, vivem de quem as hospeda, sem espoliá-los. Quando o comunismo real se esfacela, seus filhos ficam órfãos num mundo  sem ideal. A perda da ilusão para o pragmático império do mercado e do capital deixa meio mundo perdido, sem chão. O exílio é fuga vã, pois nenhum presente consegue suprir a ausência de um passado. Entretanto, ele precisa ser vivido, respirado e consumado.  E quando as ações parecem tão inúteis quanto o cultivo de uma bela e enigmática flor, resta a palavra como redentora da culpa que ninguém sabia ter.   

sábado, 19 de março de 2016

...Sou José

...
Não sei se estou
Certo ou errado.
Sei que sinto,
Sei que penso. 
Não  que me baste,
Não  que não doa.
Sem esperar consenso
Nem um deus que perdoa. 

sábado, 13 de junho de 2015

Fly Me To The Moon



Voemos para a lua.
Não a procura de deus,
Nem de mera felicidade,
Minha ou sua.

Mas voemos
Sob o comando da brisa,
Que nada pede,
Mas tudo eterniza.

Voemos ao som
Que só pede
Para encantar.

Sem magoas ou dor,
E num simples sussurro
Reclama calor.

domingo, 23 de novembro de 2014

Escolha Feliz

Há algum tempo um professor - daqueles que justificam este título por isso vou nomeá-lo: Sebastião Diógenes – me revelou que só após trinta anos de profissão se sentia seguro com a prática médica. Esta lembrança sempre me visita o pensamento desde então e me faz refletir sobre minha própria realidade. Estou com 26 anos de formado e em fevereiro próximo terei completado 24 anos de prática pediátrica. Ainda estou há séculos da capacidade do referido professor titular de Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina do Ceará, mas posso dizer que me sinto maduro o suficiente para encarar minhas deficiências e buscar amenizá-las. O conhecimento médico tem se desenvolvido muito e as informações tanto se espalharam pela rede quanto ficaram impossíveis se serem retidas em sua totalidade. Embora este fato seja a princípio motivo de júbilo para a nossa época, me incomoda uma frase que não consigo nomear o autor e diz algo como: “A medicina foi praticada dois mil anos por curandeiros, duzentos anos por cientistas e os últimos 20 anos por comerciantes”. É uma afirmação dura de ouvir, concordam? Infelizmente tem certo fundamento de verdade. Assisto com desconfiança a “tecnificação” do ato médico. A história clínica e o exame físico foram substituídos pelo exame de sangue e ultrassonografia. Já comentei com colegas que tenho constatado o “desaparecimento” dos vírus do meio ambiente. Ninguém mais tosse ou escorre nariz por causa de partículas virais espalhadas na biosfera por outros narizes e bocas. A alergia tomou conta de quase tudo. Sem falar das mais que suspeitas infecções bactérias que levam ao uso indiscriminado de antibióticos e a temível consequente multi resistência. Não prego o retorno da medicina da Idade Média, nem a desvalorização das especialidades. Muito pelo contrário. É impossível se exercer sozinho a medicina do século XXI. Só peço que não nos rendamos sem resistência a todo e qualquer bombardeio advindo da indústria farmacêutica, nem caiamos nas armadilhas dos exames complementares desnecessários. Usemos a importante arma que é o tempo. Tempo para observar e tempo para educar. Desde criança quis ser médico. Ao entrar na faculdade me encantei por todas as clínicas por onde passei. Nunca me agradou a prática cirúrgica e/ou obstétrica. Se num semestre eu bombeava corações, no outro cruzava sinapses neurais. Vi-me percorrendo túneis e caracóis auditivos e navegando por glomérulos renais. As glândulas quase me cativaram e o fígado adocicou-me a boca. Por fim, refém do amor ao ser humano por completo, e apaixonado pela alma que habita este corpo, decidi-me pela clínica geral. Aí falou forte meu lado moleque, menino travesso de tantas horas por vezes impróprias, que o digam meus colegas de turma que me viam entrar na sala cantando alto antes do início das provas. A pediatria me abraçou com força. O tratar com gente pequena me fez olhar o mundo com um toque de inocência e espanto, “maravilhamento”. Hoje me sinto seguro, sabedor que fiz o que queria e estou onde um dia quis estar. Muitos podem dizer que foi um sonho realizado. Penso que foi simplesmente uma escolha pra lá de feliz. 

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Falso Surdo Escritor

Paulo é acadêmico de letras e nos finais de semana vai ao interior dar aulas de redação a estudantes do ensino médio. Maria é uma de suas alunas e o está seguindo neste momento no ônibus de volta para a capital, coisa que Paulo desconhece, pois está sentado três fileiras à frente, onde escreve um conto. Embevecida pela paixão, ensaiando na imaginação o que dirá ao rapaz tão logo desembarquem, não sente o cheiro acre dos meliantes que vem desde a última fileira fazendo um rapa nos passageiros. Toma o maior susto quando o assaltante puxa-lhe a bolsa com o dinheiro contado para a provável volta e um celular barato que o vagabundo renega e lhe joga na cara – amanhã seu olho amanhecerá roxo. Paulo, entretido com sua escrita, permanece alheio ao pedido insultuoso do bandido que irritado, na certa pensando que se trata de um surdo, arranca-lhe o caderno da mão e esfrega os dedos exigindo grana. Paulo lhe entrega as duas notas de cem que ganhou e implora sonoramente pelo prospecto. Depois de arrebatar as notas com agilidade o ladrão atira o caderno no peito de Paulo que volta imediatamente a escrever. Encerrado o serviço, o assaltante manda o motorista abrir a porta da frente e já pisa o primeiro degrau quando estanca e volta até o falso surdo escritor e pergunta como termina estória.