sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Desconfiado

Desconfio dos que se dizem muito machos, mas não dos que nunca são vistos com namoradas. Desconfio dos que se dizem muito ricos, mas não dos que sempre conferem a conta. Desconfio dos que se proclamam inteligentes, mas não dos que não se espantam com as verdades alheias. Desconfio dos que protestam contra a corrupção, mas não dos que deixaram de assistir televisão. Desconfio de todos os moralistas, mas não de quem toma banho demorado. Desconfio dos que dão esmolas, mas não dos que escrevem seus nomes em muros invisíveis. Desconfio de quem adora revólveres, mas não de quem se arma de mesmo refutáveis argumentos. Desconfio de quem se diz patriota, mas não dos compram produtos importados. Desconfio do grito das panelas, mas não dos que sempre fecham as janelas. Desconfio do sorriso escancarado, mas não do olho que não encara. Desconfio da mão que se estende, mas não de quem reconhece a dor. Desconfio da fé que se impõe, mas não de quem teme a fúria divina. Desconfio de mim, de ti e de todos. Desconfio que não há solução, mas não de quem pensa que ela possa existir. 

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Tarde nos Pinhões

Sábado a tarde. Mercado dos Pinhões, Fortaleza, Ceará, Nordeste, Brasil. A prefeitura vem utilizando muito bem esse espaço cultural da cidade para promover encontros entre a literatura, artesanato, pintura, música e a culinária. Não sei se pela concomitância com a Bienal, será adiado o deste fim de semana próximo. Tomara que sim, porque ainda não tive coragem de atravessar a cidade para prestigiar a referida feira do livro. Sou um reconhecido ermitão e poucas coisas me fazem deixar o São Gerardo e adjacências. Mas o fato a ser narrado se passou no final de Julho último, durante o encontro entre a música e culinária, ambas animadas pela Café(cantora) e pelo café. Maria Luiza, 3 anos de fofura, não nos deixava quietos, reclamando nossa parceria no salão. Na mesa nos acompanhava um até então desconhecido casal, donos de um restaurante frequentado e elogiado pelo amigo responsável pelas apresentações. Outra novidade era a Cacildes, cerveja que estampa o Muçum e sua ilimitada sede pelo mé. Papo vai, dicas de culinária vem, somos instigados a experimentar a massa do italiano que infelizmente não se preparara o suficiente para suprir tanta fome e desejo de experimentar coisa boa. Mas nada como um bom papo para grifar nosso nome no caderno e muita paciência para esperar que nova remessa de massa fosse cozida. Depois de acabado o estoque da Cacildes e termos enfim cansado a Maria Luiza, o macarrão finalmente chegou, não sem um truque de inversão de prioridades na lista dos pedidos(tenho que confessar esta pequena transgressão ética). A massa estava escandalosamente ao dente, picante, mas deliciosamente suportável, e refém dos esboços de bacon que davam gosto marcante ao conjunto. Todos reunidos nas duas mesas de plástico que juntas congregavam os oito comensais, quando o gourmet do grupo se levanta e nos brinda, ouvido a ouvido, com um áudio, supostamente da ex presidenta Dilma se manifestando de forma pouco inteligível, desconexa e digna de todas as risadas que ele esperava compartilhar. Surpreendido pela temática política inesperada e fiel a minha falta de covardia diante do debate ideológico, me peguei o questionando sobre a desinteligência descarada do atual presidente. Foi o suficiente para seu espanto em me descobrir um "apoiador de corrupto". Respirei três vezes e perguntei o que ele lia de ciência política para se inteirar sobre o que estava ocorrendo no país e no mundo, após o que ele me brindou com a pérola de que não lia " nenhum porra de livro". Óbvio que não me espantei e incontinenti perguntei se ele era a favor da liberação das armas. É claro que era, né? Perdi a paciência e o taxei de proto fascista. Se não fosse as Cacildes talvez tivesse ficado quieto, mas calar nunca foi meu forte. Confesso ter pouca paciência com a ignorância fascista que toma como verdade tudo em que acredita e não procura promover uma consciência crítica que poderia até lhe dar argumentos para defender sua proposta, mas enxerga na ausência do conhecimento um caminho mais fácil de viver com sua pouca consciência. Viva o livro. Sábado tem Bienal. 22.08.19

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Mudanças do Tempo.

Não sei se vou falar de sonhos ou da dura realidade. A condição humana é uma estante de infinitas possibilidades. Tantas que é quase impossível escapulir das amarras que nos prendem ao papel de criaturas, apesar das inúmeras máquinas que já criamos quase do nada. A abstração é invariavelmente taxada de loucura e ninguém recebe o carimbo de normal ao esboçar uma fuga dos trilhos do imperativo pensamento linear. Os universos paralelos e as dobras do tempo são propostas que se não podemos encara-las como factíveis, pelo menos devemos entendê-las como metáforas para infinitas possibilidades de futuro. O homo sapiens tem pelo menos 250 mil anos de história neste planeta. Não é o momento de julgarmos se fizemos bom ou mal uso dele. O passado já não nos pertence, mas temos que perceber que nossa trajetória é finita e que a qualidade e o tamanho do tempo que nos resta dependem dos sonhos que ousarmos realizar, mesmo que para isso tenhamos que nos metamorfosear, evoluir no conceito darwiniano de mudar para sobreviver. E mesmo aqueles que acreditam que "nada acontece por acaso" não podem prescindir de imaginação, coragem de ousar, e disposição de luta. E é muito bom saber que nunca estaremos só. 

quinta-feira, 18 de julho de 2019

Lua Nua

Morro sozinho
Num instante mudo
Sem fé e sem sonho,
Na ausência do luto,
Sob o desejo solar
De um dia ser lua,
No jardim da rosa
Que já nasceu nua.  

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Passo Solto.

Não acredito
nos meus sonhos, 
no que vejo, 
nem no que escrevo. 

Sou inimigo feroz
da obrigação. 

Caminho com passo solto, 
hora sozinho, liberto, 
hora preso, 
perdido na multidão. 

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Perder-se

Perde-se as ilusões
em ruas vazias,
em mesas 
sem companhia,
em sonhos que
se vão como 
água suja 
pelo ralo da pia. 

Perde-se de um 
quase tudo nessa vida, 
tão pouca que até parece
que nunca foi vivida, 
tão rasa que passa 
como se fosse brisa, 
suspiro de amor
que nunca foi dividido. 

Uma noite dessas, 
assim como se nada quisesse, 
a gente podia fugir 
sem pressa de voltar.
Podia cantar os tons
que tocam só para nós,
engolir as palavras
que nunca deviam ter sido ditas,
e perceber sem entender
o mundo que não nos quer,
mas também não nos
interessa.   


sábado, 2 de fevereiro de 2019

Dez Anos


   
     Estava deitado na rede da varanda do alpendre que circunda toda a casa grande, sem saber o que pensar, vendo por ver, enxergando nada, entendendo que o tudo é invenção do pouco juízo da simplória condição humana, quando a voz vinda da sala de visita me despertou do onírico estado e me arrepiou a pele e a paz. Não podia acreditar no que ouvia. Aquele som não pertencia ao mundo que eu conhecia e o primeiro lampejo de razão que me ocorreu foi que brotara de minha própria e saudosa memória. Estava convencido disso quando ela se repetiu. “Té, venha já aqui”. O tom pareceria autoritário para quem não estivesse acostumado com ele, mas para mim nada mais natural se tratando de um pai solicitando a presença de um filho. Levantei da rede num pulo de gato para atender ao chamado vindo de dez longos anos. Atravessei a porta sem pressa, tímido, tomado pelo medo de não ser real e mais ainda pela possibilidade de ser. Mas ele estava lá, em pé, atrás da cadeira de balanço, olhando direto para mim, com um sorriso esboçado no rosto, os braços semiabertos aguardando e solicitando meu abraço. O cheiro do sabonete Phebo era inconfundível e inebriante. Mesmo que quisesse não saberia o que falar, então fiquei preso naquele abraço pela eternidade que só os sonhos nos concedem.