domingo, 29 de março de 2020

Ler Antes de Entender

Em tempos de crise percebemos o quanto estamos despreparados para enfrentar o NOVO. Isso não quer dizer que não somos capazes de sobreviver às tempestades só porque não temos um teto sobre a cabeça. Banho de chuva é coisa de prazerosa lembrança de meus tempos de menino, que inclusive não abro mão de reviver sempre que surge numa oportunidade. Mas cansei de falar de leites derramados e assuntos preventivos. Quero refletir sobre a arte de interpretar um texto, quando tantos abundam que não ousamos dar conta de parte deles. Penso eu que o primeiro passo diante daquele montão de palavras é entender seu título ou resumo não como o texto todo; se não conseguimos expressar tudo que pensamos em um tratado, que dirá resumir toda uma reflexão em duas ou três linhas. Ao adentrar o corpo do texto se despojar o mais possível do que conhece sobre o assunto; isso evita que batemos o martelo bem antes de conhecer os argumentos do autor. Ao fim da jornada, por vezes bastante heroica, é que devemos nos pôr a comparar o que lemos com o que já sabíamos. Conhecer um pouco sobre o autor ajuda a inferir qual a mensagem que ele pretende nos dar, mas pode interferir em nosso julgamento, tanto para absolvê-lo como para condená-lo. A imparcialidade será sempre um desafio e nunca uma conquista. O fundamental, o motivo instigador destas linhas que quase a acabar, é manter o respeito pelo contraditório; não perder a elegância ao apontar as discordâncias; considerar o antagonista não um inimigo, mas um companheiro na dura missão que é compreender a vida.    

sábado, 28 de março de 2020

Mão, essa Vilã.

Lembro de nos meus tempos de escola ter sido apresentado por um professor, provável que de Filosofia, a um texto, penso que de Engles, onde exaltava o papel das mãos na evolução do Homo sapiens. Preciso reler esse texto, com certeza, para me ajudar a entender o papel que as mãos humanas tem e terão para que essa "evolução" se mantenha da maneira mais harmônica possível com a natureza. Não tenho dúvidas de que existem indivíduos que estão tão distantes do problema, quanto a pudica e fria Lua está do ardoroso e apaixonado SOL, mas a imensa maioria que está justificadamente preocupada com a pandemia do CoronaVirus conhece o dito que diz que "A Mão que afaga é a mesma que apedreja". O certo é que esse instrumento ímpar de trabalho e de carinho, de repente virou nosso grande inimigo, um vilão curioso e sem noção que se mete onde não é chamado, toca tudo que passa, alisa o que não conhece e depois, sem pudor nenhum adentra boca, nariz e olhos de seu inocente e desprevenido dono. Como podemos domar essa bichinha tão teimosa e danada, quando nossos narizes e rosto coçam, olhos ardem e um resto de comida teima em se enganchar entre aqueles dois molares? Percepção corporal é a minha sugestão. Fiquemos atentos ao que nosso corpo nos pede. Ria daquela coceira na ponta do nariz, pisque quando o olho reclamar ajuda, retarde sua resposta aos estímulos até que você lave bem as mãos e ponha fim ao desassossego. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Empatia


Quantas vezes você de sensibilizou e se revoltou diante a TV com cenas de pessoas desesperadas nas portas de emergências implorando por uma vaga em UTI para um ente querido?
Aproveite a pausa, ponha a contabilidade em dia, reveja os custos, analise as inovações possíveis e sugestões do Sebrae, de sua entidade sindical, do You Tube ou até do Google. Vem de muito o estímulo à renovação contínua e criativa.
Analise sua carteira financeira. Converse com seu gerente e principalmente com seu clientes, fornecedores e parceiros comerciais.
Ponha a cachola para funcionar. Reflita sobre a condição humana, sobre o que você pode fazer para melhorar o mundo, sobre o quanto a religião lhe ensina sobre se ter um só Pai.
Descubra que você não está sozinho.
Lembra que você se indignou com aquela reportagem?
Isso se chama EMPATIA.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Mais Uma Crise?

Esta será mais uma Crise Econômica Mundial. A última de 2008, não chegou nem de longe ao impacto da que mal começamos a mergulhar. As Guerras Mundiais além de matar milhares de pessoas, tanto pela natureza bélica do conflito, como de fome e frio, quebrou inúmeras empresas, endividou várias Países e abalou sem contas de Riquezas Privadas. Depois de 70 anos da última guerra continuamos nos multiplicando pela superfície da Terra, bem como a maltratando ao intuir que se a vida é curta, por que não aproveitar se o fim não pertence a nossa limitada realidade. Não sou dado a julgar ou muito menos impor verdades. Minha percepção racional, amoral e relativista dos conceitos, me leva a uma exercitada capacidade de procurar as motivações de cada pessoa que cruza meu caminho. O que diferencia a crise atual é que não estamos vivenciando uma crise só no tilintar dos nossos caixas, e a luta não é contra inimigos de armas nas mãos, mas de vilão indiferente que usa nossas próprias mãos a seu favor. Saímos das crises anteriores pela mão de todos, representada pelo poder quase infinito do Estado que tem sua força por conta da contribuição parcial de cada um de seus cidadãos. A teoria do Isolamento Vertical é real e tem seus seguidores e razões de existir. Deixar a natureza agir por conta própria, isolando somente os grupos de risco, e se preparar para a mortalidade de muitos em um curto período, e assim esgotar o poder do inimigo foi uma estratégia de alguns países que agora se encontram no Dilema de Sofia, escolhendo quem sobreviverá e quem receberá atenção total. Negar que muitos pensam dessa maneira é esconder que somos indivíduos e temos cada um sua própria maneira de entender o que representa viver. É aí que se impõe o conceito de Democracia. Vamos ouvir a maioria e saber o que vamos fazer. Mas será que todos sabem o que devemos fazer? É aí que entra a Ciência para nos ajudar a tomar decisões. Podemos e devemos agir conforme nossas ideologias e impressões quando nossos atos interferem somente conosco. Quando nossas ações interferem com toda a sociedade, temos que nos curvar às imposições do que é mais evidente e próximo da verdade. As atuais evidências científicas nos levam a adotar um Isolamento Social Horizontal, sugestão quase unanimamente seguida neste momento pelos governantes do mundo. Embora alguns se sentem desconfortáveis com que o esta política vai trazer à economia, estão ouvindo as Autoridades Sanitárias e tomando todas as medidas necessárias para proteger os que não possuem reservas para sobreviver a inevitável crise econômica que viveremos por indeterminado tempo. A nossa dificuldade no Brasil é que nossos Governantes são tão enraizados no conceito de Estado Mínimo que tem dificuldades em vislumbrar esta nova realidade que se impõe de Estado Interventor. Peço àqueles que se rendam à ciência e que procurem esconder seus íntimos dilemas em prol da Comunidade. Sei que é difícil, mas não é impossível, quando começamos a entender que somos uma molécula de sal no Oceano.               

terça-feira, 24 de março de 2020

Leite Derramado

Tenho navegado pouco pelo feed dos amigos, mas percebo algum burburinho e certa disputa de quem mais ou menos tem culpa: o atual presidente e sua posição um tanto ambígua no combate à atual crise ou dos governos anteriores que não investiram mais pela saúde. Razões não faltam para ambos os lados, mas me parece que chorar o leite derramado é inútil e nunca deixou de ser uma dura realidade, não só no Brasil, mas como em outros Países. A Alemanha está nos dando um exemplo de como não derramar o precioso líquido, mas como podemos nos comparar com uma Sociedade Altamente Evoluída que perdeu as duas últimas grandes guerras e se levantou a custa de um povo determinado e disciplinado. Óbvio que as críticas são impossíveis de calar, e servem para que aprendamos que prevenir é melhor que remediar, frase feita tão comum quanto impraticada. É indiscutível que numa sociedade pobre como a nossa, sempre haverá a desculpa, e como negar seu fundo de verdade, de que não se pode gastar com prevenção enquanto tanta gente não tem nem o mínimo para sobreviver. O dado de que é mais barato prevenir do que tratar é sempre desprezado e esquecido nas gavetas dos governantes. Há muito tempo a arte prever o surgimento de um vírus letal para a humanidade. Penso que não é o caso deste atual, mas se não mudarmos a lógica que determina as relações humanas, o fim do Homo sapiens é apenas uma questão de tempo.

Cara Limpa - 56 anos.

Amanhã completo 56 anos de existência biológica. Posso e quero crer que a ideia de minha vida seja bem mais longa e date da união de meus pais, ou de meus avós ou tataravós, podendo expandir tal estapafúrdia suposição ao infinito da idade da vida humana na Terra. O que somos hoje não passa de um sonho inimaginável nos princípios da História, se quero pôr um marco inicial no roteiro da aventura que me proponho a contar. Os primeiros relatos humanos não passam de coisas cotidianas como caçar, comer, dormir e observar a natureza. Os nossos conceitos de realidade foram mudando conforme a "evolução" do Homo sapiens. Coisas tão inerentes ao nosso dia a dia, que até nos parecem algo imanentemente humano, como o dinheiro, foram desconhecidas da maioria dos indivíduos de nossa espécie. Nem sempre trocamos um pacote de arroz por duas cédulas de dois Reais, nem 300 mililitros de fantasia gasosa por quase cinco Reais. A lógica humana é a de mudança quase perpétua e não implica necessariamente em Progresso, uma noção de "melhora". É certo que passamos a viver mais e com mais conforto físico, mas não podemos inferir que isso chegue a ser uma "vantagem biológica". Nada nos prova em definitivo que a caminhar com o passo atual, alcançaremos a quase imortalidade; é ate tremendamente discutível se isso nos trará mais  bem que mal. Entendo que nossa mente é imatura para acompanhar e entender a força vital que nos anima. Não a toa construímos tantas Igrejas e elegemos tantos Deuses. O Divino retrata nossa impossibilidade de dar respostas a questões que nos aflige. Nossos conceitos são mera interpretação individual e coletiva de tudo que nos cerca. As mudanças são tão temidas quanto desejadas. Percebemos na arte o grande representante dessas mudanças. Estudando sua história, percebemos que os Clássicos de hoje surgiram por ousarem mostrar e ser diferentes. O que tornou Da Vince genial não foi só a qualidade de sua pintura, mas a maneira diferente de se expressar. Isso se aplica aos grandes da Literatura, Música e mais recentemente do Cinema. Não tenhamos medo de mudar. Permaneçamos com essa capacidade camaleônica de nos auto transformar pois só assim poderemos nos imiscuir com a transformação irremediável da natureza e de tudo.     

domingo, 22 de março de 2020

Gente Camaleão.

... Não, não sou um pai ou marido exemplar, um abnegado cidadão, nem um magnânimo herói da Saúde como tantas paneladas me querem fazer acreditar. Uma cirurgia recente me condenou a quarentena de um mês, e não pensava em prolonga-la por um minuto que fosse, antes da explosão dessa pandemia. Faltando dez dias para retornar ao trabalho, confesso que me dá um arrepio de insegurança. Sou gente, tenho medo de pegar esse vírus e de espalhar aos entes amados. Sou gente e as vezes me irrito com minha mulher e filhas, companheiras desse fadado confinamento. Sou gente e me indigno com as opiniões estapafúrdias que se espalham pela internet, especialmente as vindas de familiares, amigos e colegas. Sou gente e me isolo ainda mais num livro que me aprisione entre uma página e outra de seu volume. Sou gente e me deixo levar pela tentativa de traduzir em palavras tudo que me insulta os miolos. Sou gente e tomo um ou dois goles de cerveja para tentar relaxar. Sou gente mas sou também um camaleão. Lavo louça, enxugo prato, varro chão, boto carnes para assar, ligo para as pessoas queridas só para saber como estão se virando. Todo dia aprendo uma nova forma de observar as coisas simples da vida. Cada ação ou objeto tem sua justificativa filosófica e é delicioso tentar descobrir a que cada uma se propõe. Um copo vazio na mesa da sala, um telefone que não responde quando a gente chama, uma ambulância que passa estridente na avenida "quase vazia", uma piada que se espalha sobre um assunto tão sério. Já impaciente para terminar esse texto deixo a pergunta : Será que a Justificativa Filosófica da "Peste do Século 21" seja a de fazer todo mundo se descobrir como gente?