quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Autocrítica

Não gosto de nada que descubro em mim:
Detesto meu egoísmo,
Minha ilusão de autossuficiência,
Minhas atitudes estereotipadas e previsíveis.
Só finjo ser forte.

Sou parasita de uma sociedade
Que me mantém vivo, e só.

Se pudesse, e tivesse coragem,
Fugiria para fora de mim,
Esqueceria as verdades e as razões
Nas entranhas do “não eu”.

Escaparia de meu cárcere privado,
Que não seria inexpugnável,
Não fosse meu medo
De ser livre e feliz.


09/01/03.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Desemprego


Desarma o despertador que nunca tocou nos sete anos que trabalha na montadora de carros. Sua responsabilidade sempre venceu a imparcialidade das horas. Iniciara como ajudante de mecânico e depois de um brilhante desempenho no curso profissionalizante assumira o cargo de supervisor de produção na linha de montagem. Agora podia dar uma vida confortável para a mulher e o casal de filhos. Não tinham do que reclamar.
Dá uma olhada lá fora, o calor está chegando e com ele as chuvas de verão. Bota a água no fogo para o café, não quer acordar a mulher que foi dormir tarde por causa da febre do caçula. A chuveirada tira o resto de preguiça do corpo. Café, pão, queijo e uma banana depois e está pronto para sua rotina. Não tira férias há quase três anos. Fecha a porta da frente devagarinho. A noite vai levar os dois ao circo; se o menor melhorar. Passa a mão no Gol 04, está uma belezura, só roda nos finais de semanas. Chega à parada junto com o ônibus da empresa. Conhece todo mundo ali. Formam uma família. A poltrona, ao lado do Jonas, está a sua espera como sempre. Senta e vai logo puxando papo, saber das últimas.
-         A coisa parece que vai arrebentar mesmo cumpade. Tão dizendo que não passa desta semana. O pessoal do sindicato esta pedindo uma reunião há quase um mês e nada. Aí tem coisa.
-         Qual nada Jonas. O pátio tá cheio, mas já teve pior. Lembra do ano passado. O rumor era grande, todo mundo se matando de trabalhar com medo de demissão e tudo ficou bem. Até parece que os caras espalham a miséria para deixar todo mundo com medo de perder o emprego e produzir mais. Essa gente é fogo. Quer ter a gente na mão, comendo quieto.
A cada parada o ônibus enche mais. Alguns sobem ainda com cara de sono, outros de quem nem dormiu. Os mais experientes, com mais de vinte anos de montadora são os mais saudados e festejados. Ninguém fica calado. O assunto é um só, a crise das fábricas.
-         A corda vai arrebentar do nosso lado.
-         O IPI subiu e eles vão botar muita gente para fora.
-         Os homens lá da matriz não querem nem ouvir falar em reduzir os lucros. Preferem fechar as fábricas.
-         O presidente disse que não vai intervir.
-         Eu escuto isso todo dia, vocês parecem que não têm outro assunto, diz nosso amigo. Que tal um circo hoje a noite pessoal. Estou pensando em levar os meninos.
O papo se encerra. Estão quase chegando. No portão da fábrica uma pequena multidão já se amontoa esperando a hora de entrar.
Os relógios dão sete horas e nada do apito. Lá dentro não se nota nenhum movimento. Começa o zum-zum-zum. Os mais exaltados gritam através das grades.
Um desconhecido se aproxima do portão e entrega uma resma de papel para os homens lá fora. Todos, num só coro perguntam-lhe o que esta acontecendo.
-         Não sei de nada, só me pediram para distribuir estes papéis. Não adianta me perguntar nada. Sai tão rápido quanto chegou.
Agora um grande silêncio toma conta do pátio. Todos lêem a um só tempo o temido pedaço de papel. A fábrica está fechada por tempo indeterminado. Todos devem esperar em casa pela decisão final da diretoria. Será enviada carta para todos nos próximos dias. Depois de muito bate-boca resolvem que de nada adianta ficar ali parado. Fica acertado uma reunião no sindicato para amanhã à tarde, para dar tempo dos dirigentes tomarem pé da situação.
Aos poucos o pátio vai se esvaziando.
Chegar a casa mais cedo é motivo de susto grande. A mulher adivinhando o pior enche os olhos d’água, os filhos correm ao seu encontro.
-         Pai, que horas vamos pro Circo, pergunta o mais novo. Sua febre tinha passado.
-         Mais tarde filhote, mais tarde, responde enquanto engole sua dor.


terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Ilusão de Estar Vivo



Ilusão da vida eterna;
Medo de morrer
Sem deixar marcas
Ou gozar o suficiente.

Medo de envelhecer,
Sentir na própria pele
O prurido da decadência
E do esquecimento.

Medo de amar,
Tomar sem se dar,
Dar sem querer.

Medo de dormir demais
E perder a lotação
Para o paraíso.


24/03/03

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Big Bode Brasil

Recusa o convite da turma para o happy-hour. Dá uma última espiada na bunda da colega antes do elevador fechar e levar aquele avião para outros ares. A vontade quer crescer dentro dele, mas resiste. Prometera ir ao cinema com a mulher. Preso no engarrafamento lembra a morena novata que nesta exata hora deve estar sob a mira dos gaviões do escritório. “Será que ela tá me dando bola?”. Não pode ser; logo para o único casado da sala! O rádio toca Rita Lee: “que tal nós dois, numa banheira de espuma...”. Avança mais um quarteirão. A moça no outdoor da cerveja é a cara da nova colega. Sua imaginação anda muito fértil ultimamente. Uma hora depois chega a casa, toma um banho ligeiro e corre pra pegar a última sessão. Não tem jeito, perdem as cenas iniciais do filme. Fica sem saber por que a mulher traça todos que vê pela frente. Deve ser algum trauma de infância, imagina enquanto o volume cresce na calça. Passa o braço pelo ombro da mulher e ela se aconchega. Chegam tarde, as crianças já dormiram. Toma um belo copo de água gelada pra acalmar o fogo. O xixi desce com dificuldade através do membro enrijecido. Encontra a mulher virada pro outro lado da cama. Passa a mão na bunda conhecida, e encosta no corpo moldado pelos anos. Ela se vira, dá uma bitoca sem graça e explica que hoje não vai dá. Ele pega o controle e liga a TV no Big Bode Brasil. 20/02/02. 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Louco Varrido


Uma ideia puxa outra
E o mundo,
Bem como minha cabeça,
Não para.

Os motivos são fúteis,     
Mas os resultados são desprezíveis.
      
O que ele diz ninguém ouve,       
Mesmo assim ele grita até ficar rouco              
(será que estou ficando louco?).                                                    
A saia da gata levanta                                       
E o velho, sem Viagra, nem olha.                                                                               
O carro buzina avisando                                           
Que a porta esta aberta.                                    
Fecho sem agradecer.                                                           
O garçom quer saber                                
Quando vai receber o Pis.                                           
E a bala perdida não pega por um triz.                                                            
O telefone chamou o número errado;                           
Alguém ficou perdido na chuva.                  
Deve ser algum tarado.                                                                     
Agora posso prosseguir.                                            
A chuva parece que parou.                           
Mas deu vontade dum pipi.                            
É por causa da cerveja,       
Que já tá quase no fim.                                                                        
Sem mulher e sem consolo,       
O que restará de mim?                                                         
22/03/02.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Sonhos Contidos


Independente, inteligente, bonita. Uma baita morena, belo exemplar da espécie. Difícil imaginá-la ainda virgem nesta altura do campeonato. Quem se aventurou jura que é verdade. Se bem que ninguém tivera a chance de ver para crer. Filha única de fervorosos religiosos, havia tido uma severa educação. Namorar só em casa, debaixo dos olhos dos pais. Pretendentes foram muitos. Todos, enfeitiçados pelos dotes da moça, se submetiam ao rigoroso interrogatório. De regra iam se aguentando a espera de um descuido. Quando acontecia tratavam de atacar, mas para surpresa dos pobres coitados ela os repelia com fervor, punha-os a correr, urrando de indignação. Quase todos os colegas do banco já haviam investido sem sucesso. Agora a tratavam com indiferença. Era estigmatizada como frígida.


Sozinha, na intimidade do quarto, se transformava num vulcão. Sonhava acordada com o príncipe encantado, se entregando de alma e corpo para o futuro marido. Suas noites eram longas, acordava sempre úmida e sedenta.

Por tantas passou que acabou se resignando. Nenhum homem parecia capaz de um amor puro. Conformou-se com a rotina da missa com seus pais, um sorvete na praça com a empregada da casa e as novelas da TV. Foi se acostumando e seus sonhos ficando mais raros.

Os pais não se importavam ou fingiam não ligarem muito para a situação da moça. Pelo contrário, falavam mal dos homens que lhe cortejavam, adjetivando-os de tarados, hereges, marginais. Ela ouvia e calava.
Um Domingo depois da missa seu pai comunicou que não voltaria com elas para casa, teria uma reunião importante com membros da igreja. Fugindo da rotina só retornou já tardinha. Trazia um amigo. Este não contava mais que 30 anos, tinha um rosto simpático e um porte admirável. Apresentado como morador de outra paróquia, em breve se mudaria para o bairro. Após o jantar ficaram a sós na sala, assistindo TV. Trocaram pouquíssimas palavras e ele se despediu com o pretexto de acordar cedo. As visitas se tornaram frequentes e o pedido formal de namoro não demorou. Não se continha de contentamento. Finalmente encontrara o cavalheiro de seus sonhos. Respeitador, inteligente, sensível, extremamente religioso e gostava dos seus pais, com recíproca mais que verdadeira. Namoravam como dois irmãos, beijinhos no rosto, mãos entrelaçadas, um joguinho de cartas com os pais, um refrigerante na esquina. Foram ao cinema no máximo duas vezes. Depois de deixá-lo no portão corria para o quarto e começava a imaginá-lo dentro dela, sentia suas carícias, aquelas mãos fortes e delicadas percorrendo sua macia e imaculada pele. Só conseguia dormir depois de esgotar toda a luxúria que conseguia antever.

O pedido de casamento não tardou. Não queriam esperar mais que um mês. Morariam uns tempos com os pais dela enquanto procuravam com calma sua própria casa. Casaram-se com as bençãos de Deus numa sexta de manhã. Depois do almoço viajaram para uma breve lua-de-mel na serra. Na chegada a mãe percebeu o nítido desapontamento da filha. Sentindo-se na obrigação de saber o que dera errado, ouviu o relato de uma grande decepção. Ele não poderia ter sido mais frio. Considerava-se ainda virgem. O noivo mal a tocara. Mostrara-se distante e a todo o momento dava desculpas para não fazerem amor. Sua mãe a consolou explicando que era a tensão dos primeiros dias de casamento. Seu pai mesmo agira de maneira semelhante e depois tudo ficara bem. Paciência era só do que ela precisava.
     Mas ela não estava disposta a esperar e resolveu partir para a luta. Inventava de um tudo. Perfumes e tônicos afrodisíacos, lingeries provocantes, olhares lânguidos, strip-tease, gemidos e obscenidades ao ouvido, cavalgava-o despudoradamente, mas nada do homem reagir.
     Por fim, cansada da indiferença do marido, aquietou-se. Para este foi um grande alívio. Ficou menos constrangido. Conseguia conversar mais a vontade, pois sabia que não teria que mostrar serviço na cama mais tarde. Seus desejos foram mais uma vez reprimidos. Ela ainda era uma mulher infeliz, mas tinha um marido caseiro, respeitador e gentil. Tinha um amigo, praticamente um irmão.
     Acordou cedo naquele domingo. Estranhou a ausência do marido no quarto. Tentou em vão conciliar novamente o sono. Decidiu dar um passeio pelo jardim. Curtia o calorzinho gostoso do sol das sete quando ouviu um ruído surdo, um gemido contido vindo da garagem. Abriu a porta de uma vez e deparou-se com os dois. Pareciam dois cachorrinhos. Bateu bruscamente a porta e correu para dentro de casa. Na cozinha sua mãe preparava o café. Respirou fundo, aproximou-se e deu-lhe um beijo na testa. Sem dizer nada, tomou a faca da mãe, começando a fatiar o pão duro de ontem para fazer torradas. Os dois pombinhos não demoraram muito. O velho de cabeça baixa. Encontrando o ambiente calmo, nada disseram e sentaram-se à mesa. Ela quebrou o gelo. Com tom sutilmente irônico perguntou se desejavam salsicha com ovos mexidos. Tudo correu na mais completa harmonia. Irradiava uma alegria fora do comum. Terminada a refeição foram se aprontar para a missa. Caprichou no visual. No meio do caminho parou, deu um tchauzinho e sem dizer mais nada sumiu por outra rua. Ninguém lhe perguntou aonde ia.    

    

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

De Hoje Em Diante...

Não fale comigo
Se não quiser me ouvir,
Nem me escute
Se nada tiver a falar.

Não pegue minha mão
Se não com aperto forte
Nem me venha com abraço
Que não me amasse o coração.

Não quero elogios
Que venham sem admiração,
Nem aceito reprimendas
Sem a perspectiva do perdão.

Não quero beijo falso
Sem o fogo da paixão.
Quero tudo que mereço
O resto faz falta não.

01.01.12