sábado, 21 de dezembro de 2013

Instante Mudo

Morro sozinho
Num instante mudo.
Sem fé e sem sonho
Na ausência do luto.
Sob o desejo solar
De um dia ser lua,
No jardim da rosa

Que já nasceu nua. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Inadmissível

Acordou às cinco em ponto com os pingos na janela de março. Para você ver como as coisas andam estranhas na época em que se passa essa estória, virou a torneira e um sopro vazio sem água fez puf e se apagou. Ainda bem que se prevenira e deixara um baldo de plantão debaixo da pia, com o que ele fez uma ligeira ablução. Abriu uma latinha de refrigerante de cola para acompanhar o pão com salsicha e maionese. Vestiu seu terno bem cortado - hoje é dia de reunião da diretoria - e desceu. Ligou o carro por uns dois minutos até deixar o motor quente e macio e desligou. Abriu o portão e deixou-se levar pela corrente de gente que fluía tortuosa por entre os teimosos veículos que ousavam enfrentar o rush eternizado pelo sonho do carro próprio, muitos deles abandonados pelos donos em plena via. Pegou a fila do elevador as sete e trinta e nem bem dava oito quando pontualmente adentrou sua sala. Passou o antivírus no computador e abriu o relatório que havia preparado para a reunião. Um aviso de notificação no Face o atrasou um pouco; teve que compartilhar a piada com todos seus amigos. Mesmo assim foi o primeiro a chegar à reunião. Depois de muita discussão marcou-se outra para próxima semana, para se acertar detalhes. Voltou à mesa e pediu seu almoço pelo telefone. O sanduiche de presunto e queijo mais o suco de caixinha chegou meia hora depois. A tarde passou sem percalços, fora o ar-condicionado que pifou e a manutenção prometeu vir semana que vem.  Tentou ligar para a moça que andava ficando, combinar um jantar a dois, mas o celular dela esteve sem sinal a tarde toda. Sem coragem para arriscar voltou para casa nos mesmos passos da vinda. Depois de ser roubado em uma ou duas esquinas, chegou a casa em tempo de assistir a novela das sete, enquanto comia a pizza pronta esquentada no micro-ondas. Bebeu quatro cervejas vendo o jogo final da série C do futebol brasileiro e dormiu feliz, sonhando com o inadmissível. 

sábado, 30 de novembro de 2013

Resgates da Memória

Cada Lembrança
Brota diferente
Conforme o momento,

Somos feitos
De emoção e de
Livre pensamento.

Por isso choramos
Na alegria
E rimos do mais
Triste sofrimento.

Somos a maré
Que vibra
Entre o furor

E o lamento. 

Mania de Maria

Maria Ana não me ama,
Maria Dora me adora.
Maria de Lourdes não me ilude,
Maria Morgana me engana.
Maria Rita me irrita,
Maria Benta me acalenta.
Maria Luzia é poesia
Maria Rosa é toda prosa.
Maria Clara me declara,
Maria Louca me oculta.
Maria Renata me acata,
Maria Milena me condena.
Maria Mulata me maltrata
Maria Belém me quer bem.
Maria Letícia me atiça,
Maria Eduarda me aguarda.
Maria Fernanda me comanda,
Maria Eunice me agradece.
Maria Isabel me é fel
Maria Dulce me é doce.
Maria Sofia me vigia
Maria Cota me solta.
Maria Julia me ajuda
Maria Gloria me derrota.
Maria Carmim é um jardim

Cravo José chegou ao fim. 

sábado, 26 de outubro de 2013

Bebim

O mundo ainda não acabara. Foi a primeira coisa que pensou ao mal abrir os olhos de ressaca. Quando se virou para aliviar-se dos gases, viu a criatura mais linda que já esquentara os lençóis de sua alcova. A moça o fulminava com um sorriso compreensivo e olhos de satisfação. Antes que criasse coragem para falar qualquer coisa e pedir explicações, a moça foi logo contando toda a comédia, tão manjada que dá até vergonha de relatar. Mas a verdade é mesmo assim, rotineira. E não é só para parecer originalmente imaginativo que vou fugir da realidade. Ela passeava pelas mesas da boate quando o encontrou derreado no sofá. Balbuciava algo incompreensível a sua curiosidade. Olhou-a bem no meio dos olhos e disse na maior cara de pau que não gostava de mulher linda demais; cheirava a encrenca e chifre.
- E como você veio parar aqui?

- Qual a puta que recusa três verdinhas para levar um Bebim para casa?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Desejo Real

Ela o convida a conhecer seu apartamento.
- Que acha do retrato?
- De verdade?
- Claro.
- Muito real. A arte está no desejo.
- E qual seria então meu desejo que o retrato não mostrou?
- O único que existe: ser feliz.
- Você acha que sou feliz?
- Ninguém é feliz.
- E o que eu estou desejando agora?
...
- E esse beijo foi real?
- Nada devia ser real.
- Nem uma cama?

- Depois te digo.

sábado, 5 de outubro de 2013

Viva

Viva Deus
E viva eu,
Viva o crente
E o ateu.
Viva a vida
E viva a morte,
O azar e a
Boa sorte.

Viva enfim
Toda a carne,
Toda alma
E toda dor.
Tudo que se
Fez passado.
Tudo que

Exigiu amor.