Um texto não lido é como um amor não correspondido. Neste espaço quero compartilhar um pouco de meus escritos, dar e pedir sugestões de leituras,filmes, músicas e ...
domingo, 8 de março de 2020
Madrugada
A madrugada me encanta. Não a dos jovens vampiros, que já fui um dia, que adentram pela noite contando com o repouso de um caixão bem vedado que os protegerá dos temíveis raios do divino Apolo. A madrugada que me seduz é a que promete ser início de jornada, é a do último bocejo do sono, a do silêncio que será quebrado em pouco, a da luz que alimentará minha descansada mente. Assistir os primeiros raios do sol com a perspectiva da inclusão e não da fuga em grossos lençóis, me traz a sensação de que o futuro não é mera ficção, não é somente expectativa, mas algo palpável que quase posso ver na silhueta das nuvens que se desenham no horizonte. Paradoxalmente retorno aos primórdios da humanidade e me visto de Neanderthal, um guerreiro herói que se prepara para mais um dia de luta pela sobrevivência. Sempre que me vejo diante de um dilema, recorro ao meu primata ancestral, buscando um conselho com quem maior intimidade teve com a natureza. Retorno a um tempo quando não havia a suposição do ser divino, quando éramos parte integrante de toda matéria e de sua consequente vida. Ainda meio embotado pelos últimos resquícios de sono, me ponho de frente para o leste e fecho os olhos. Aos reabri-los bem devagar, posso sentir, muito mais do que ver, minha pele coberta de pêlos, simbolo do homem que se renova, mas que nunca esquece suas origens.
sexta-feira, 1 de novembro de 2019
Em Busca do Amor Quase Perdido
Em Busca do Amor Quase Perdido.
“No dia em que nascemos
E vivemos para o mundo
Nos falta uma costela
Que encontramos num
segundo”...
(Vicente
Celestino)
Domingo
de sol, cidade aprazível, pé de serra, final dos anos 50. O sinal de TV ainda
não riscava os ares cearenses. A juventude se divertia com longos “papos”,
banhos de cascatas ou torcendo pelo valoroso e esforçado time de futebol do
nosso Maranguape. Foi em um desses jogos que um amigo comum fez as devidas apresentações:
Eu e Ela. Foi o princípio de tudo.
Tal quase todos os jovens
de então, trabalhava durante o dia e cursava o científico à noite. Sobravam os
fins de semana para o namoro. O amor corria sob as rédeas da paixão quando os irmãos,
responsáveis pela menina, resolveram que seria mais prudente “devolvê-la” à mãe,
que desde
um par de anos se mudara com o novo marido e o filho mais novo para o interior
do Paraná. A tristeza da inesperada separação só não foi maior que a
estratégia armada para ir em busca do
amor quase perdido.
A turma do Liceu do Ceará de 1961 estava com dificuldades em arrecadar dinheiro para a festa de término do curso
secundário, quando uma oportunidade surgiu nas páginas do jornal. O Presidente
da Loyde Aéreo Brasileiro viria visitar o Ceará, terra que o acolhera e tratara
muito bem durante uma viagem dificultosa que tivera em tempos idos. Eu e mais
três colegas fomos ao aeroporto para recepcioná-lo e aproveitamos uma brecha no
protocolo para solicitar sua ajuda em nosso desejo de conhecer o Rio de
Janeiro. O simpático empresário nos pediu que o procurasse no dia seguinte no
escritório alencarino da empresa, à época situada na esquina da Rua Major
Facundo com Pedro Pereira, térreo do Edifício recém construido do IAPC.
Chegando lá, sem grandes
esperanças, mas impressionados com a simplicidade do Presidente de tão prestigiada
companhia aérea, fomos graciosamente brindados com quatro cortesias “daqui pra
li e de lá pra cá”, Fortaleza-Rio-Fortaleza, voando nas asas do famoso DC-4 – Skymaster.
Confesso que quase apanhamos
do restante da turma que ficou tanto a ver navios, como bem distante de “embarcar”
no formoso quadrimotor a hélice do Lloyde. Foram duas horas até Recife e mais
duas até o soteropolitano Aeroporto 02 de Julho, onde desembarcamos para o almoço
incluído no bilhete. A apimentada comida baiana pesou na barriga e as três
horas e quarenta minutos até o Rio passaram quase despercebidas. O sol já se
escondia por trás do Corcovado quando aterrizamos no Aeroporto Santos Dumont.
Dez impossíveis horas entre Fortaleza e o Rio para os que só acreditam nas proezas
da modernidade.
A capital acabara de se mudar
para o cerrado Goiano, quando quatro jovens cearenses, cada um com seus próprios
planos, mal sentiram na pele o ameno frio da Terra do Cristo Redentor ( a mesma
fundada por Estácio de Sá aos 20 de Janeiro de 1567 e batizada então como São
Sebastião do Rio de Janeiro), ali mesmo
no aeroporto, tomaram seus diferentes destinos. Meu querer era pegar um ônibus
direto para a megalopólica São Paulo, mas pelo avançado da hora tive mesmo foi
que arranjar um lugar para passar a noite na capital carioca. Instalei-me no
Grande Hotel São Francisco, na Visconde de Inhaúma com Av Rio Branco, no centro histórico da cidade. O Cristo nem
tivera tempo de abrir os braços quando acordei e fui ao terminal Rodoviário
(ainda não existia a Rodoviária Novo Mundo), onde descobri que só havia passagem
para o outro dia “ao meio-dia e meio”, expressão mais que estranha ao ouvido cearense tao íntimo do “doze e meia”. O
porteiro do hotel, tão paraíba quanto eu, e sensibilizado com meu escancarado
desânimo, me sugeriu que pegasse o trem expresso que saía da Central do Brasil
por volta das 6:00 horas da manhã, indo direto para a Estação da Luz em São
Paulo. De lá até a Estação Sorocabana era um pulo e então era só embarcar no
trem para Maringá, norte do Paraná, que saía as 20:30 horas.
A viagem de trem Rio-São Paulo foi feita sob
grande ansiedade pois tinha a certeza que demorava mais que o previsto e a única
comida que conseguia engolir era sanduiche de mortadela com guaraná Antártica,
delícias que hoje aceito com muitas restrições, só para não ser indelicado. O
pensamento flutuava entre a namorada e a Estação Sorocabana. Vi passar Volta
Redonda, Resende, Itatiais, Queluz, Lorena, Aparecida, Guaratinguetá, Taubaté,
São José dos Campos, Guarulhos e tantas outas cidades do Vale do Paraíba, e São
Paulo me parecia cada hora mais longe.
Mas como o tempo e o espaço
não pertencem ao mundo do desejo, o trem chegou pontualmente, como prometido, na
charmosa Estação da Luz e num salto estava na almejada estação Sorocabana. Agora
era só concentrar o pensamento no objetivo final: chegar o mais cedo possível
nos braços de minha amada, que inocentemente desconhecia por completo minha ida
ao Paraná.
Antes porém teria que passar
por um grande susto que paradoxalmente me acalmou a ansiedade e a excitação.
Era noite, tínhamos saído há poucos minutos da Estação Sorocabana quando um
outro trem cruzou com o meu. A impressão de fim de mundo quase me borra as
calças de terror, fato que serviu de enorme regojizo ao sulista que viajava na
poltrona da frente: ver um cabeça chata nordestino tomar tamanho susto por
coisa tão corriqueira para ele. Claro, aqui eu só conhecia um par de trilhos onde trafegava a velha
“Maria Fumaça” da antiga RVC. Até Ourinhos, divisa de São Paulo com o Paraná, o
trem era elétrico. De lá até o seu
destino final, assumia o comboio uma palpitante locomotiva a diesel. Era Julho
e o meu agasalho para enfrentar o frio sulino era a expectativa da chegada de
surpresa depois de viajar quase quatro mil quilômetros. Adianto a memória para
a brusca queda da temperatura no Paraná que me fez ficar quase três dias sem
tomar banho.
Cheguei numa Apucarana
ainda de madeira e barro, mas já em acelerado processo de desenvolvimento que
se concretizou, sendo hoje uma das pérolas do norte do Paraná. Trinta anos
depois, quando eu e ela voltamos a visitá-la, só a reconhecemos pela Igreja
Matriz, próxima a estação do trem.
A expectativa era grande,
mas o medo de não ser bem recebido era maior, por isso me hospedei num hotelzinho
no centro da cidade, onde criei coragem e liguei para meu pretenso futuro
cunhado, pedindo sigilo absoluto da minha chegada. Depois de uma noite fria e insone,
fui recompensado. Quase dois dias e meio depois de minha saída de Fortaleza fui
convidado a ficar hospedado na casa da família, paraíso onde morava a deusa dos
meus sonhos. No dia seguinte perguntei se ela queria casar com aquele doido que
atravessara o país por seu amor. Foi quando me dei conta que havia me esquecido
da aliança, embora e felizmente a carteira estivesse estufada com as notas que
meus parentes me deram como presente de formatura. Comprei um par numa ourivesaria da cidade e à
noite, após uns bons e estimulantes goles de conhaque “Castelo”, fiz o pedido
oficial à mãe, ao padrasto e ao irmão, e finalmente ficamos noivos ao som de
Sibonay, primeira faixa do Long Play “Ivanildo – O Sax de Ouro, Vol. I”,
lembrança presente que Eu levara para Ela. Sempre que ouço a música de Ernesto
Leucona me transporto àqueles dias de ansiosa e apaixonada emoção.
A viagem de volta passou
desapercebida, tanta era a paixão que ocupava meu pensamento. Os ouvidos também estavam selados para os que
diziam que eu estava louco, principalmente pela pouca idade e ainda incerta situação
financeira. Contavam que eu passara todos os dias curtindo as praias cariocas e
não selando meu destino com o amor de toda uma vida. Nos casamos em março de
1962.
quinta-feira, 3 de outubro de 2019
Osmose
Amor
é o equilíbrio perfeito
entre duas vogais e
duas consoantes.
Algo mais a ver
com respirar que sorrir,
menos de pêlo
que de sonho,
mais de pulsar
que de correr.
Com amor
não se brinca,
nem se briga,
se OSMOSIFICA.
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Desconfiado
Desconfio dos que se dizem muito machos, mas não dos que nunca são vistos com namoradas. Desconfio dos que se dizem muito ricos, mas não dos que sempre conferem a conta. Desconfio dos que se proclamam inteligentes, mas não dos que não se espantam com as verdades alheias. Desconfio dos que protestam contra a corrupção, mas não dos que deixaram de assistir televisão. Desconfio de todos os moralistas, mas não de quem toma banho demorado. Desconfio dos que dão esmolas, mas não dos que escrevem seus nomes em muros invisíveis. Desconfio de quem adora revólveres, mas não de quem se arma de mesmo refutáveis argumentos. Desconfio de quem se diz patriota, mas não dos compram produtos importados. Desconfio do grito das panelas, mas não dos que sempre fecham as janelas. Desconfio do sorriso escancarado, mas não do olho que não encara. Desconfio da mão que se estende, mas não de quem reconhece a dor. Desconfio da fé que se impõe, mas não de quem teme a fúria divina. Desconfio de mim, de ti e de todos. Desconfio que não há solução, mas não de quem pensa que ela possa existir.
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Tarde nos Pinhões
Sábado a tarde. Mercado dos Pinhões, Fortaleza, Ceará, Nordeste, Brasil. A prefeitura vem utilizando muito bem esse espaço cultural da cidade para promover encontros entre a literatura, artesanato, pintura, música e a culinária. Não sei se pela concomitância com a Bienal, será adiado o deste fim de semana próximo. Tomara que sim, porque ainda não tive coragem de atravessar a cidade para prestigiar a referida feira do livro. Sou um reconhecido ermitão e poucas coisas me fazem deixar o São Gerardo e adjacências. Mas o fato a ser narrado se passou no final de Julho último, durante o encontro entre a música e culinária, ambas animadas pela Café(cantora) e pelo café. Maria Luiza, 3 anos de fofura, não nos deixava quietos, reclamando nossa parceria no salão. Na mesa nos acompanhava um até então desconhecido casal, donos de um restaurante frequentado e elogiado pelo amigo responsável pelas apresentações. Outra novidade era a Cacildes, cerveja que estampa o Muçum e sua ilimitada sede pelo mé. Papo vai, dicas de culinária vem, somos instigados a experimentar a massa do italiano que infelizmente não se preparara o suficiente para suprir tanta fome e desejo de experimentar coisa boa. Mas nada como um bom papo para grifar nosso nome no caderno e muita paciência para esperar que nova remessa de massa fosse cozida. Depois de acabado o estoque da Cacildes e termos enfim cansado a Maria Luiza, o macarrão finalmente chegou, não sem um truque de inversão de prioridades na lista dos pedidos(tenho que confessar esta pequena transgressão ética). A massa estava escandalosamente ao dente, picante, mas deliciosamente suportável, e refém dos esboços de bacon que davam gosto marcante ao conjunto. Todos reunidos nas duas mesas de plástico que juntas congregavam os oito comensais, quando o gourmet do grupo se levanta e nos brinda, ouvido a ouvido, com um áudio, supostamente da ex presidenta Dilma se manifestando de forma pouco inteligível, desconexa e digna de todas as risadas que ele esperava compartilhar. Surpreendido pela temática política inesperada e fiel a minha falta de covardia diante do debate ideológico, me peguei o questionando sobre a desinteligência descarada do atual presidente. Foi o suficiente para seu espanto em me descobrir um "apoiador de corrupto". Respirei três vezes e perguntei o que ele lia de ciência política para se inteirar sobre o que estava ocorrendo no país e no mundo, após o que ele me brindou com a pérola de que não lia " nenhum porra de livro". Óbvio que não me espantei e incontinenti perguntei se ele era a favor da liberação das armas. É claro que era, né? Perdi a paciência e o taxei de proto fascista. Se não fosse as Cacildes talvez tivesse ficado quieto, mas calar nunca foi meu forte. Confesso ter pouca paciência com a ignorância fascista que toma como verdade tudo em que acredita e não procura promover uma consciência crítica que poderia até lhe dar argumentos para defender sua proposta, mas enxerga na ausência do conhecimento um caminho mais fácil de viver com sua pouca consciência. Viva o livro. Sábado tem Bienal. 22.08.19
sexta-feira, 16 de agosto de 2019
Mudanças do Tempo.
Não sei se vou falar de sonhos ou da dura realidade. A condição humana é uma estante de infinitas possibilidades. Tantas que é quase impossível escapulir das amarras que nos prendem ao papel de criaturas, apesar das inúmeras máquinas que já criamos quase do nada. A abstração é invariavelmente taxada de loucura e ninguém recebe o carimbo de normal ao esboçar uma fuga dos trilhos do imperativo pensamento linear. Os universos paralelos e as dobras do tempo são propostas que se não podemos encara-las como factíveis, pelo menos devemos entendê-las como metáforas para infinitas possibilidades de futuro. O homo sapiens tem pelo menos 250 mil anos de história neste planeta. Não é o momento de julgarmos se fizemos bom ou mal uso dele. O passado já não nos pertence, mas temos que perceber que nossa trajetória é finita e que a qualidade e o tamanho do tempo que nos resta dependem dos sonhos que ousarmos realizar, mesmo que para isso tenhamos que nos metamorfosear, evoluir no conceito darwiniano de mudar para sobreviver. E mesmo aqueles que acreditam que "nada acontece por acaso" não podem prescindir de imaginação, coragem de ousar, e disposição de luta. E é muito bom saber que nunca estaremos só.
quinta-feira, 18 de julho de 2019
Lua Nua
Morro sozinho
Num instante mudo
Sem fé e sem sonho,
Na ausência do luto,
Sob o desejo solar
De um dia ser lua,
No jardim da rosa
Que já nasceu nua.
Num instante mudo
Sem fé e sem sonho,
Na ausência do luto,
Sob o desejo solar
De um dia ser lua,
No jardim da rosa
Que já nasceu nua.
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