quarta-feira, 11 de março de 2020

Abraço Global

Que toda imprensa traz embutida a ideologia de seu dono é indiscutível. Entretanto até mesmo a imprensa e seus donos estão inseridos na lógica do capital e do lucro, o que exige dela o mínimo de respeito à verdade dos fatos. Por outro lado, uma imprensa sectária serve ao interesse de um grupo especifico e não tem a pretensão de ganhar mercado. É como alguém que só cozinha para si. Ninguém jamais saberá de seu tempero. A Rede Globo nasceu sob o amparo da Ditadura da Direita e se expandiu nacional e mundialmente sempre contando com o apoio da Elite financeira nacional e "global". Entretanto seu tamanho tomou tal volume que sua Ideologia Conservadora da Direita não consegue puxar as rédeas e ditar o total conteúdo de sua programação sob o risco de perder credibilidade, público e arrecadação. O resultado é a Globo, que sempre foi alvo cativo de crítica da Esquerda, agora passar a ser atacada pela Direita a quem defende. Este fenômeno pode parecer paradoxal, mas analisado pela ótica de que vivemos uma época de tentativa de destruição do papel do Estado na sociedade, que a Globo defende incondicionalmente, e onde qualquer lampejo de Imprensa Crítica deve ser calada, para que nenhum tipo de discussão séria seja colocada em pauta, começamos a entender que esta caça às bruxas tem sua lógica e razão de ser. A bruxa é um ser diferente, e o Deus Conservador que se locupletou do Castelo no cume econômico do Mundo, detesta tudo que simbolize mudança. É nesse contexto que assistimos a um Médico pedir desculpas em público por abraçar um criminoso. Se ele e a Globo não estivessem inseridos no mercado, simplesmente mandariam todos os críticos "pastarem no quintal de sua genitora". Perdoem-me o lampejo de indignação, mas como não me insurgir diante uma reação estúpida contra um ato de carinho. Há quem diga que o médico foi hipócrita e se utilizou politicamente da situação. Eu não enxergo bem o lado ruim das pessoas. Já disse por aqui que meu olho direito é deficiente, e só tenho nitidez da imagem oriunda do olho esquerdo. Raramente me comovo com cenas sentimentais que a televisão explora, mas daí a duvidar de um abraço é condenar meu coração a dureza do concreto. Para finalizar, alguém já reclamou de meus longos textos, deixo aqui meu apelo por mais crítica. Mesmo vendo pouco, mantenho o olho direito aberto, pela profundidade perspectiva que ele pode me dar. Não nos fechemos em "mantras dogmáticos".

Viva o abraço,
Viva o beijo e o
Aperto de mão.

Viva tudo que
Esteja vivo,
Com ou sem
Coração.

Ass: Esquerda Abraçadora do Brasil.

domingo, 8 de março de 2020

08Mar2020

Vez perdida entro no twitter do Messias para me atualizar sobre a última palhaçada perdida ou só para checar se é verdade o que muitos comentam. Hoje, dia oito de Março de pleno vinte-vinte, o que me insultou o juízo foi o comentário de um de seu asseclas insultando seus pares a proclamarem unissonante que "Eu votei no Bolsonaro foi por isso mesmo" A postagem em questão era sobre a exclusão da Folha de São Paulo da cobertura do jantar entre Donald e Jair Os mesmos que não se cansaram de criticar o governo petista agora execram os críticos ao seu Mito São pessoas que, muito mais do detestam, não aceitam serem confrontados São os "ditos homens" que matam mulheres por não aceitam serem trocados por outro ou outra São meninos mimados que não querem largar o brinquedo do amiguinho, e que se escondem nos porões da ignorância quando diante de qualquer argumento minimamente lógico Ainda há duvidas se os índices de agressões e feminicídios realmente aumentaram ou se são o resultado de mais casos denunciados , investigados e julgados O dia Internacional da Mulher não deve ser só um dia de distribuição de flores, embora seja muito agradável e desejável espalhar cores e cheiros pelo mundo, mas um dia de insurreição contra a hipocrisia, o patriarcalismo e a falta do minimo de senso critico de tanta gente que fala o que não sabe e não quer ouvir o que tanto precisa

Madrugada

A madrugada me encanta. Não a dos jovens vampiros, que já fui um dia, que adentram pela noite contando com o repouso de um caixão bem vedado que os protegerá dos temíveis raios do divino Apolo. A madrugada que me seduz é a que promete ser início de jornada, é a do último bocejo do sono, a do silêncio que será quebrado em pouco, a da luz que alimentará minha descansada mente. Assistir os primeiros raios do sol com a perspectiva da inclusão e não da fuga em grossos lençóis, me traz a sensação de que o futuro não é mera ficção, não é somente expectativa, mas algo palpável que quase posso ver na silhueta das nuvens que se desenham no horizonte. Paradoxalmente retorno aos primórdios da humanidade e me visto de Neanderthal, um guerreiro herói que se prepara para mais um dia de luta pela sobrevivência. Sempre que me vejo diante de um dilema, recorro ao meu primata ancestral, buscando um conselho com quem maior intimidade teve com a natureza. Retorno a um tempo quando não havia a suposição do ser divino, quando éramos parte integrante de toda matéria e de sua consequente vida. Ainda meio embotado pelos últimos resquícios de sono, me ponho de frente para o leste e fecho os olhos. Aos reabri-los bem devagar, posso sentir, muito mais do que ver, minha pele coberta de pêlos, simbolo do homem que se renova, mas que nunca esquece suas origens.

sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Em Busca do Amor Quase Perdido


Em Busca do Amor Quase Perdido.


 “No dia em que nascemos
E vivemos para o mundo
Nos falta uma costela
Que encontramos num segundo”...
(Vicente Celestino)

Domingo de sol, cidade aprazível, pé de serra, final dos anos 50. O sinal de TV ainda não riscava os ares cearenses. A juventude se divertia com longos “papos”, banhos de cascatas ou torcendo pelo valoroso e esforçado time de futebol do nosso Maranguape. Foi em um desses jogos que um amigo comum fez as devidas apresentações: Eu e Ela. Foi o princípio de tudo.
Tal quase todos os jovens de então, trabalhava durante o dia e cursava o científico à noite. Sobravam os fins de semana para o namoro. O amor corria sob as rédeas da paixão quando os irmãos, responsáveis pela menina, resolveram que seria mais prudente “devolvê-la” à mãe, que desde um par de anos se mudara com o novo marido e o filho mais novo para o interior do Paraná. A tristeza da inesperada separação só não foi maior que a estratégia  armada para ir em busca do amor quase perdido.
 A turma do Liceu do Ceará de 1961 estava com dificuldades em arrecadar dinheiro para a festa de término do curso secundário, quando uma oportunidade surgiu nas páginas do jornal. O Presidente da Loyde Aéreo Brasileiro viria visitar o Ceará, terra que o acolhera e tratara muito bem durante uma viagem dificultosa que tivera em tempos idos. Eu e mais três colegas fomos ao aeroporto para recepcioná-lo e aproveitamos uma brecha no protocolo para solicitar sua ajuda em nosso desejo de conhecer o Rio de Janeiro. O simpático empresário nos pediu que o procurasse no dia seguinte no escritório alencarino da empresa, à época situada na esquina da Rua Major Facundo com Pedro Pereira, térreo do Edifício recém construido do IAPC.
Chegando lá, sem grandes esperanças, mas impressionados com a simplicidade do Presidente de tão prestigiada companhia aérea, fomos graciosamente brindados com quatro cortesias “daqui pra li e de lá pra cá”, Fortaleza-Rio-Fortaleza, voando nas asas do famoso DC-4 – Skymaster.
Confesso que quase apanhamos do restante da turma que ficou tanto a ver navios, como bem distante de “embarcar” no formoso quadrimotor a hélice do Lloyde. Foram duas horas até Recife e mais duas até o soteropolitano Aeroporto 02 de Julho, onde desembarcamos para o almoço incluído no bilhete. A apimentada comida baiana pesou na barriga e as três horas e quarenta minutos até o Rio passaram quase despercebidas. O sol já se escondia por trás do Corcovado quando aterrizamos no Aeroporto Santos Dumont. Dez impossíveis horas entre Fortaleza e o Rio para os que só acreditam nas proezas da modernidade.  
A capital acabara de se mudar para o cerrado Goiano, quando quatro jovens cearenses, cada um com seus próprios planos, mal sentiram na pele o ameno frio da Terra do Cristo Redentor ( a mesma fundada por Estácio de Sá aos 20 de Janeiro de 1567 e batizada então como São Sebastião do Rio de Janeiro),  ali mesmo no aeroporto, tomaram seus diferentes destinos. Meu querer era pegar um ônibus direto para a megalopólica São Paulo, mas pelo avançado da hora tive mesmo foi que arranjar um lugar para passar a noite na capital carioca. Instalei-me no Grande Hotel São Francisco, na Visconde de Inhaúma com Av Rio Branco,  no centro histórico da cidade. O Cristo nem tivera tempo de abrir os braços quando acordei e fui ao terminal Rodoviário (ainda não existia a Rodoviária Novo Mundo), onde descobri que só havia passagem para o outro dia “ao meio-dia e meio”, expressão mais que estranha ao ouvido  cearense tao íntimo do “doze e meia”. O porteiro do hotel, tão paraíba quanto eu, e sensibilizado com meu escancarado desânimo, me sugeriu que pegasse o trem expresso que saía da Central do Brasil por volta das 6:00 horas da manhã, indo direto para a Estação da Luz em São Paulo. De lá até a Estação Sorocabana era um pulo e então era só embarcar no trem para Maringá, norte do Paraná, que saía as 20:30 horas.
A  viagem de trem Rio-São Paulo foi feita sob grande ansiedade pois tinha a certeza que demorava mais que o previsto e a única comida que conseguia engolir era sanduiche de mortadela com guaraná Antártica, delícias que hoje aceito com muitas restrições, só para não ser indelicado. O pensamento flutuava entre a namorada e a Estação Sorocabana. Vi passar Volta Redonda, Resende, Itatiais, Queluz, Lorena, Aparecida, Guaratinguetá, Taubaté, São José dos Campos, Guarulhos e tantas outas cidades do Vale do Paraíba, e São Paulo me parecia cada hora mais longe.
Mas como o tempo e o espaço não pertencem ao mundo do desejo, o trem chegou pontualmente, como prometido, na charmosa Estação da Luz e num salto estava na almejada estação Sorocabana. Agora era só concentrar o pensamento no objetivo final: chegar o mais cedo possível nos braços de minha amada, que inocentemente desconhecia por completo minha ida ao Paraná.
Antes porém teria que passar por um grande susto que paradoxalmente me acalmou a ansiedade e a excitação. Era noite, tínhamos saído há poucos minutos da Estação Sorocabana quando um outro trem cruzou com o meu. A impressão de fim de mundo quase me borra as calças de terror, fato que serviu de enorme regojizo ao sulista que viajava na poltrona da frente: ver um cabeça chata nordestino tomar tamanho susto por coisa tão corriqueira para ele. Claro, aqui eu só conhecia  um par de trilhos onde trafegava a velha “Maria Fumaça” da antiga RVC. Até Ourinhos, divisa de São Paulo com o Paraná, o trem era elétrico. De lá  até o seu destino final, assumia o comboio uma palpitante locomotiva a diesel. Era Julho e o meu agasalho para enfrentar o frio sulino era a expectativa da chegada de surpresa depois de viajar quase quatro mil quilômetros. Adianto a memória para a brusca queda da temperatura no Paraná que me fez ficar quase três dias sem tomar banho.
Cheguei numa Apucarana ainda de madeira e barro, mas já em acelerado processo de desenvolvimento que se concretizou, sendo hoje uma das pérolas do norte do Paraná. Trinta anos depois, quando eu e ela voltamos a visitá-la, só a reconhecemos pela Igreja Matriz, próxima a estação do trem.
A expectativa era grande, mas o medo de não ser bem recebido era maior, por isso me hospedei num hotelzinho no centro da cidade, onde criei coragem e liguei para meu pretenso futuro cunhado, pedindo sigilo absoluto da minha chegada. Depois de uma noite fria e insone, fui recompensado. Quase dois dias e meio depois de minha saída de Fortaleza fui convidado a ficar hospedado na casa da família, paraíso onde morava a deusa dos meus sonhos. No dia seguinte perguntei se ela queria casar com aquele doido que atravessara o país por seu amor. Foi quando me dei conta que havia me esquecido da aliança, embora e felizmente a carteira estivesse estufada com as notas que meus parentes me deram como presente de formatura.  Comprei um par numa ourivesaria da cidade e à noite, após uns bons e estimulantes goles de conhaque “Castelo”, fiz o pedido oficial à mãe, ao padrasto e ao irmão, e finalmente ficamos noivos ao som de Sibonay, primeira faixa do Long Play “Ivanildo – O Sax de Ouro, Vol. I”, lembrança presente que Eu levara para Ela. Sempre que ouço a música de Ernesto Leucona me transporto àqueles dias de ansiosa e apaixonada emoção.    
A viagem de volta passou desapercebida, tanta era a paixão que ocupava meu pensamento.  Os ouvidos também estavam selados para os que diziam que eu estava louco, principalmente pela pouca idade e ainda incerta situação financeira. Contavam que eu passara todos os dias curtindo as praias cariocas e não selando meu destino com o amor de toda uma vida. Nos casamos em março de 1962.