quinta-feira, 9 de junho de 2022

Sonho ( Texto publicado na Antologia Sobrames 2022)

Um sonho nasceu
Meio sem jeito, 
Tal um desejo
Sem pretensão
De eternidade. 

Lampejo de luz, 
Réstia de carinho
Que se insinua 
Entre o real e a
Mais duvidosa
Verdade. 

Fugir ao destino
É se fingir de morto,
Cochilar do que se quer
Com quase nenhuma 
Tola vontade. 

Naquele instante
Onde o tempo
Se mistura com o
Infinito e o que há de feio 
Se mistura com o bonito. 

Tempo sem hora 
Nem instante.
Sou tão seu, 
Quanto você é tão 
Somente eu. 

Espaço que não 
se pertence, 
Motivo que a ninguém 
Convence. 

Cantiga de amor
Que consola a gente, 
Mas que deixa marcas 
Que não se consegue 
Esquecer. 

Manias de querer , 
Manias de sentir,
Manchas de sonhos
Máculas sem dor
Do que custou ser. 




domingo, 5 de junho de 2022

Humberto

Me escondo.
Não consigo chorar
Em público 
Por quem teve a vida
Como única, definitiva
E divertida oportunidade
De se expressar contra 
Um mundo que se quer
Desumano.

Se eu pudesse falar
Com ele era só para 
Agradecer por todos
Os deslumbramentos, 
Cada instante em que se dar
Era tão o mesmo que receber. 
Que calar era tão precioso
Quanto ouvir.

Entre uma lágrima e outra
Busco a força na saudade,
De quem sonhou com a vontade
De viver num mundo feliz. 





sábado, 4 de junho de 2022

Cuecas ( texto publicado Antologia Sobrames 2022)

Meteu duas cuecas num saco azul de mercantil e se diluiu na independência. Certezas quase nenhuma, só a arrogância de assumir do que era acusado: egoísta. Qualquer acordo é melhor que uma grande causa. Mais digno aceitar o texto acusatório que tentar se defender com argumentos que ninguém quer ouvir. Deixou o cartão de crédito sobre a mesa da sala. Tinha a convicção de que nada no futuro lhe pertencia ou esperava. Talvez com um pouco de sorte, a noite parasse de chover e um prato de sopa fria espantasse o buraco da fome que sentiria na madrugada. Seguiu com um sorriso ensimesmado nos lábios, reflexo da dor de não se sentir compreendido, mas também com a sincera dúvida se tinha ou não razão. Mas pensando bem, quem escapava incólume da loucura? Quem podia se declarar perfeitamente são e certo? Caiu sem querer num buraco na calçada e ficou indolente à espera da ambulância do SAMU. Talvez encontrasse compaixão em quem era pago para tê-la. Mas já era tarde demais e a ferida não era tão grande assim. Voltou sem desejo ou culpa ao ponto de partida e se calou para o que sobrou de sua ilusão. 

Vela de Aniversário

Não tenho medo nem vontade de morrer, mas também  nenhum amor singular pela vida. Será que posso parar de respirar sem dor? Não trago dúvidas quanto ao próximo passo. Sei que ele será dado, numa direção qualquer, sem sentido definido. Certo é que não será em falso, apenas um pé na frente do outro. Simples como um sopro na vela do próximo aniversário.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

Ninho

Sentar no 
Lugar de sempre.

Desconhecer 
A possibilidade
Da escolha.

Saber que há 
Canto e lugar
Para a paz 
E existência. 

Tatear a escuridão 
Do mundo iluminado
De olhos fechados,
Com domínio inconsciente
Do seu espaço. 

Confundir 
O lá com o acolá,
Ambos sinônimos 
Na mesma verdade 

Colher o fruto 
Que plantei outrora
Com o gosto doce
Que nunca vai embora. 

domingo, 29 de maio de 2022

Dor

A intempestividade da dor nos consome a força e o juízo. 
Daí a beleza que vem do não querer morrer sozinho.

domingo, 22 de maio de 2022

Dia

No dia que eu cresci achei que o mundo era meu, e tudo que via na frente era a concretude do desejo que consumia meus sonhos. O dia quando eu cresci, assim mesmo, sem data certa no calendário, sem um simples X riscando um número qualquer entre outros trinta, um pedaço de tempo pedindo para se perpetuar  num imenso instante, ficou perdido na memória para se eternizar nesse lapso de glória, onde me escondo, entre a dor e o riso, pleno de culpa, carente de perdão, caminhante sem pé, pedinte sem mão, sugando o pouco, o mínimo preciso. Porque no dia que eu crescer não será em vão, mas o fim de tudo que nunca imaginei, a eternidade com que jamais sonhei. Será o encontro de todos os infinitos, a mistura sem desejo do feio com o bonito, a luta sem dor contra tudo que sequer acredito.