Freud pouco exagerou ao pôr a figura do pai a frente de variadas idiossincrasias humanas.
Perder o pai é quase como nascer de novo. O mundo parece que fica diferente e a gente ganha um protagonismo que não temos a certeza de saber exercer direito. Mas a vida é feita para todos e o caminho não é direto nem torto, apenas único.
Quando ele me deixou, fui escalado de filho a pai. A responsabilidade não pesou sobre os ombros, apenas me senti diferente, em outro nível, nem melhor nem pior. Perda sentida e singular, que não deixou dor, mas uma profunda saudade com o recheio do amor.
Quando sento na mesa para contar e ouvir histórias, percebo a inexistência do tempo. A música se confunde com a memória. O real é o mesmo que o sentimento. As notas vibram no coração e os versos bailam na mais pura emoção.
A paternidade não pode, nem deve exigir, mas ser sentida com leveza, simplicidade, um monte de carinho, um pouco de paciência e muita satisfação, orgulho encabulado pelo que se ajudou a construir.
Digo ajudou, porque penso ser quase uma obrigação deixar grande dose de autonomia aos pingos de amor que entregamos ao mundo. Um pai dito perfeito não dá espaço para a expansão plena da nova personalidade que se desenvolve desde o nascimento até o momento de deixar o ninho.
O segredo é não querer, nem procurar, a gratidão dos filhos. Mas senti-la de forma subliminar de maneira espontânea e natural como se organiza o desmame que nunca é um adeus, mas uma contínua e insistente espera pelo amor que nunca se perdeu.