terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Aconchego

O calor 

de teus dedos

no aconchego 

das primeiras horas, 

me desperta para

o que há de vida

na criança que 

não mais chora. 

Esplendor

De todas as ruas
Por onde andei
Nenhuma tem 
O encanto da tua. 

Calçada livre
E segura,
Sem pudores 
Ou manias. 

Caminhos
De quem 
Sabe onde pisa
E o que quer. 

Conceitos 
Que se misturam,
Esplendor de quem 
Sabe ser mulher. 

Sexo Fantástico

Domingo é um dia Fantástico.

Praia, almoço, soneca.

Cinema com as crianças.

Dormir cedo depois do sexo.

 

Segunda-feira

Acorda a mulher com um beijo no cangote. Sente o cheiro do amor impregnado nos lençóis. As bocas se encontram num beijo apaixonado. O corpo se assanha, mas é hora de trabalhar.

 

Terça-feira

Acorda com o despertador. Dá um beijo no rosto da mulher. Sente uma vontade danada de urinar e corre para o vaso. Dá uma encostada na bunda dela e sussurra um “até mais tarde” cheio de segundas intenções.

 

Quarta-feira.

Acorda a força. Passeia a mão pela anca saliente e diz que está morto de fome. Espera pelo pão quentinho que mandou a empregada comprar. Antes de sair bate na porta do banheiro e avisa: “Tchau amor”.

 

Quinta-feira

Acorda todo moído. Resmunga para a esposa que vai trocar o colchão no sábado. Toma um banho morno para relaxar. Quase dorme fazendo a barba. Não tem fome nem tempo para comer. Antes de passar a chave grita que esta saindo.

 

Sexta-feira

Acorda animado e assobiando o toque de despertar. Toma uma ducha fria cantando “hoje é sexta-feira, traga mais cerveja...”. Depois de elogiar o café pede para a empregada avisar a patroa que ele vai chegar tarde.

 

Sábado

Só levanta na hora do almoço. A mulher nem olha para ele. Liga a televisão para ver o jornal e adormece. O telefone o desperta para o jogo com os amigos. Sai de fininho, mas nem precisava, pois a mulher já saíra há tempos para o cabeleireiro.     

Sensações

 

Sinto fome.

A fraqueza do corpo

Invade a cabeça

Que rodopia,

Levada pelo Saci,

Para o reino

Sem volta da miséria.

 

Sinto frio.

O sangue virou pedra,

Tal qual o sentimento.

Os olhos não choram

A dor alheia.

As mãos não se estendem

Para dar o cobertor.

 

Sinto sede.

Quero tudo

O que não posso ter.

A língua seca

Não sabe beijar.

A pele engelhada

Já não encanta.

 

Sinto dor.

Os nervos pulsam.

O suor negro

Poreja na pele branca.

Grito sem lembrar

Que o vizinho é surdo

E o amor está longe.

 

14.01.05  

Amor Adormecido

 

Nua sob lençol branco

Repousa silente,

Cheio de encanto,

O corpo da adolescente.

 

Arquejando ele assiste,

Com dor e sem pressa,

A verdade contundente

Do quase nada que lhe resta.

 

Vira-se sem respeito,

Coça o pescoço,

Esfrega o peito numa

Inquietude sem alvoroço.

 

Magoado pela vergonha

Parte em busca de vingança.

Enquanto a menina sonha,

Ele acredita, tem esperança.

 

A pele sedosa se cala,

Não se arrepia.

Despreza esse amor

De tão pouca valia.

 

 

Respira fundo

Acalmando o peito

Enquanto mãos trêmulas

Passeiam pelo corpo, sem jeito

 

O sorriso da inocente.

Só aumenta seu horror.

A folia de um mundo inconsciente

Alimenta sua alma de dor

 

Quer fugir,

Mas o orgulho lhe prende.

Quer amar,

Mas o desejo não vem

Quer morrer,

Mas o coração não para.

Quer matar,

Mas sua mão é covarde

Quer compreender,

Mas a menina esta muda.

Quer esclarecer,

Mas a criatura não ouve.

 

23.09.05

Inspirado em

“Memórias de Minhas Putas Tristes” de GGM.

 

Magia

E por algo mais mágico
que um compartilhado desejo,
os instantes se misturam
num amontoado de múltiplas 
e possíveis aspirações. 

As horas que espantam no agora, 
não passam de meras pétalas
choradas num arvoredo 
de continuo recomeço. 

Se partimos para lá, 
voltamos de lá para cá.

Teimamos na insistência de um tempo
que nos quer prisioneiro, 
mas também se mostra
incapaz de nos amarrar
a elos que nunca pedimos. 

Pensar o amanhã como 
algo que nascerá tarde demais,
é nos entregar nas mãos 
de uma torpe certeza,
e perder a perspectiva 
honesta do mais puro 
suspiro de doloroso prazer.

Por isso festejamos 
cada passo como 
novo recomeço, 
e voltando como ao útero materno,
renascemos para a vida,
como se fossemos 
vivê-la pela primeira vez.

Amar, verbo impossível.

amar,

verbo impossível

para quem

tem olho cinza.

 

amar,

verbo impossível

para quem

tem riso seco.

 

amar,

verbo impossível

para quem

tem perna dura.

 

amar,

verbo impossível

para quem

tem mão macia.

 

amar,

verbo impossível

para quem

tem ouvido inquieto.

 

amar,

verbo impossível

para quem

tem boca gulosa.

 

amar,

verbo impossível

para quem

tem coração mudo.

 

2005