sábado, 26 de janeiro de 2013

Homem oculto


Sou o homem
Que passa
Correndo por
Detrás daquele muro.

Por isso
Não me vejo,
Não me basto,
Não me iludo.

26.01.13

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

É preciso (II)


É preciso:

Procurar
O eterno
No finito.

Descobrir no feio
O que há
De bonito.

Entender que
Há algo certo
No errado.

Viver toda verdade
Com o coração
Calado.

23.01.13

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Solidão 4


Não tive irmãos.
Perdi moço meus pais.
Minha mulher não resistiu 
ao terceiro parto.
Meu primogênito foi assassinado.
O avião que levava minha menina
Para a Disney enterrou-a no mar.
Os poucos amigos me
Deixaram suas saudades.
Não tenho para quem dar,
Nem com o que gastar
Tudo que guardei.
Só, entre as paredes
Deste apartamento
Um por andar,
De frente para o mar,
Espero o último toque da campainha.
Não lembro a última
Refeição que fiz.
Espalhadas no tapete
As garrafas vazias do
Álcool que elegi como
Meu último e fiel companheiro.

2004 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Prosopagnosia


Não reconheço teu rosto,
Mas teu jeito de olhar,
Tua voz me pedindo um beijo
Em meio a mil lamentos,
O cheiro doce de banho
De tua pele espelhando o luar.

Se passar por ti
Esquecido de meu desejo,
É que não reconheci
Em tua nova forma de ser
O que já não me queres dar
E que guardas para outro amor. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Caricatura



Sou um idiota vestido de homem cabeça desprendido de quase tudo que o consumismo fácil pode dar. Ontem fiz minha caricatura e me descobri “velho e acabado” e honestamente horrível. Mesmo assim resolvi mostrá-la junto com a convicção de que não sou o que aparento e mais do um mero “ponto preto posto por uma mosca no teu pensamento”. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Culto


O movimento é intenso, um entra e sai constante, meninos correm pelos espaços entre as cadeiras de plástico. Enquanto o pastor prega no palco, muitos gritam aleluia e outras manifestações de fé e amor ao Senhor. O clima é intenso para quem não está acostumado e num passado distante frequentou as anódinas missas católicas. Muitos se ajoelham e se debruçam sobre a Bíblia deitada no assento das cadeiras. Um ou dois homens de vermelho, igualmente ao pastor (depois fiquei sabendo que era na verdade um obreiro), me estendem a mão e oferecem a paz do senhor. Dou meu melhor sorriso amarelo e ouso retribuir a saudação, embora saia sem graça de minha boca sem fé. Um inquieto rapaz senta na minha frente, muda constantemente a cadeira de lugar, mexe a cabeça insistentemente, parece que esta conversando com alguém ou mais provavelmente com ele mesmo. Silvana me chama a atenção para seus dedos em forma de baquetas de tambor, diz ser sinal de viciado em crack. Minha preocupação não aumenta e sim minha curiosidade. Num supetão ele se levanta e se aproxima de uma jovem que esta duas cadeiras ao meu lado direito. Põe as mãos em concha ao redor de seu ouvido e lhe faz uma secreta pregação que termina com um sonoro berro, felizmente abafado pelo coro que canta em honra do Senhor. Ele volta à sua cadeira em minha frente e a jovem franzina permanece em pé, olhando em frente, sem abrir a boca, talvez orando pela paz que tanto anseia, ou quem sabe desejando o fim próximo da própria vida. Imagino uma lágrima retida que não ousa sair. Com sorte seu algoz não dure muito e ela encontre um bom pai entre os irmãos em Cristo para sua filha que daqui a pouco estará rodopiando feliz nos braços do desnorteado e amoroso pai. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013



Tio Bebeto sempre me concedia sua benção antes de eu próprio pedi-la ou de lhe dizer qualquer coisa. Nunca considerei como uma crítica, pois seu largo sorriso sempre vinha depois, mas como sua maneira peculiar (nenhum tio jamais fez o mesmo) de desejar minha felicidade. Sei que não o fazia somente para mim, mas para todos os filhos, sobrinhos e netos. Era verdadeiramente um homem de família. Soube cultivar a harmonia entre os irmãos como nenhum outro e era único na sua prática de visitar regularmente a todos. Nossas conversas eram quase sempre longas e divertidas, muitas delas repetidas, assim como as de seu irmão quase gêmeo que tive a sorte de ter como pai, mas sempre me enchia a alma com a doce experiência de seu amor compartilhado. Seu riso farto e sua receptividade às minhas irreverências mostrava bem o homem que respeita e se orgulha de sua família, principalmente dos filhos que nunca cansou de elogiar. Dizia que já morrera várias vezes e voltara sem ter história para contar do mundo de lá. Ontem não voltou, mas sua história está perpetuamente gravada com letras carinhosas em minha alma, pois poucos são capazes de escrever tão bem com a gramática do amor. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

A Morte é 
um fato
coberto 
por cimento. 

A verdade é
um desejo,
fruto do 
enamoramento.

05.01.12

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Perdão


Com o passo
Perdido no
Passado que
Não pude
Perdoar,
Penso no
Pulo pro
Fundo do poço
Que ficou
Solto no ar. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Tempo



Sou o tempo que vivi,
Vivo que o tempo que ganhei.
Choro e sofro por saber
Que meu sonho
É o tempo que não terei.

Tempo, oculto amigo,
Chega sem permissão
Para nos dar castigo.
Passa sem ser notado
Abandona-nos sem abrigo.

Tempo é ilusão de mortal,
Sempre a procura de Tempo
Para namorar,
Para descansar,
Para brincar,
Para estudar.

Tempo:
Desculpa atroz
Para a inútil pretensão
Da eternidade.

Tempo:
Ilusão do infinito,
Desejo incontrolado,
De não morrer.

2004