segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ano Ruim

Fala-me ao coração
O que me meche
Sem movimento.
O que me bloqueia
O pensamento,
O que me torna leve,
Pronto para voar.
Sou pluma
Procurando vento,
Fato em busca
Do exato momento,
Cheiro que quer
Se espalhar
Sem encantar.
Procuro um
Caminho sem volta,
Sofrer sem lamento,
Perder na lembrança
Um tempo que finda
Sem nada deixar.


sábado, 21 de dezembro de 2013

Instante Mudo

Morro sozinho
Num instante mudo.
Sem fé e sem sonho
Na ausência do luto.
Sob o desejo solar
De um dia ser lua,
No jardim da rosa

Que já nasceu nua. 

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Inadmissível

Acordou às cinco em ponto com os pingos na janela de março. Para você ver como as coisas andam estranhas na época em que se passa essa estória, virou a torneira e um sopro vazio sem água fez puf e se apagou. Ainda bem que se prevenira e deixara um baldo de plantão debaixo da pia, com o que ele fez uma ligeira ablução. Abriu uma latinha de refrigerante de cola para acompanhar o pão com salsicha e maionese. Vestiu seu terno bem cortado - hoje é dia de reunião da diretoria - e desceu. Ligou o carro por uns dois minutos até deixar o motor quente e macio e desligou. Abriu o portão e deixou-se levar pela corrente de gente que fluía tortuosa por entre os teimosos veículos que ousavam enfrentar o rush eternizado pelo sonho do carro próprio, muitos deles abandonados pelos donos em plena via. Pegou a fila do elevador as sete e trinta e nem bem dava oito quando pontualmente adentrou sua sala. Passou o antivírus no computador e abriu o relatório que havia preparado para a reunião. Um aviso de notificação no Face o atrasou um pouco; teve que compartilhar a piada com todos seus amigos. Mesmo assim foi o primeiro a chegar à reunião. Depois de muita discussão marcou-se outra para próxima semana, para se acertar detalhes. Voltou à mesa e pediu seu almoço pelo telefone. O sanduiche de presunto e queijo mais o suco de caixinha chegou meia hora depois. A tarde passou sem percalços, fora o ar-condicionado que pifou e a manutenção prometeu vir semana que vem.  Tentou ligar para a moça que andava ficando, combinar um jantar a dois, mas o celular dela esteve sem sinal a tarde toda. Sem coragem para arriscar voltou para casa nos mesmos passos da vinda. Depois de ser roubado em uma ou duas esquinas, chegou a casa em tempo de assistir a novela das sete, enquanto comia a pizza pronta esquentada no micro-ondas. Bebeu quatro cervejas vendo o jogo final da série C do futebol brasileiro e dormiu feliz, sonhando com o inadmissível. 

sábado, 30 de novembro de 2013

Resgates da Memória

Cada Lembrança
Brota diferente
Conforme o momento,

Somos feitos
De emoção e de
Livre pensamento.

Por isso choramos
Na alegria
E rimos do mais
Triste sofrimento.

Somos a maré
Que vibra
Entre o furor

E o lamento. 

Mania de Maria

Maria Ana não me ama,
Maria Dora me adora.
Maria de Lourdes não me ilude,
Maria Morgana me engana.
Maria Rita me irrita,
Maria Benta me acalenta.
Maria Luzia é poesia
Maria Rosa é toda prosa.
Maria Clara me declara,
Maria Louca me oculta.
Maria Renata me acata,
Maria Milena me condena.
Maria Mulata me maltrata
Maria Belém me quer bem.
Maria Letícia me atiça,
Maria Eduarda me aguarda.
Maria Fernanda me comanda,
Maria Eunice me agradece.
Maria Isabel me é fel
Maria Dulce me é doce.
Maria Sofia me vigia
Maria Cota me solta.
Maria Julia me ajuda
Maria Gloria me derrota.
Maria Carmim é um jardim

Cravo José chegou ao fim. 

sábado, 26 de outubro de 2013

Bebim

O mundo ainda não acabara. Foi a primeira coisa que pensou ao mal abrir os olhos de ressaca. Quando se virou para aliviar-se dos gases, viu a criatura mais linda que já esquentara os lençóis de sua alcova. A moça o fulminava com um sorriso compreensivo e olhos de satisfação. Antes que criasse coragem para falar qualquer coisa e pedir explicações, a moça foi logo contando toda a comédia, tão manjada que dá até vergonha de relatar. Mas a verdade é mesmo assim, rotineira. E não é só para parecer originalmente imaginativo que vou fugir da realidade. Ela passeava pelas mesas da boate quando o encontrou derreado no sofá. Balbuciava algo incompreensível a sua curiosidade. Olhou-a bem no meio dos olhos e disse na maior cara de pau que não gostava de mulher linda demais; cheirava a encrenca e chifre.
- E como você veio parar aqui?

- Qual a puta que recusa três verdinhas para levar um Bebim para casa?

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Desejo Real

Ela o convida a conhecer seu apartamento.
- Que acha do retrato?
- De verdade?
- Claro.
- Muito real. A arte está no desejo.
- E qual seria então meu desejo que o retrato não mostrou?
- O único que existe: ser feliz.
- Você acha que sou feliz?
- Ninguém é feliz.
- E o que eu estou desejando agora?
...
- E esse beijo foi real?
- Nada devia ser real.
- Nem uma cama?

- Depois te digo.

sábado, 5 de outubro de 2013

Viva

Viva Deus
E viva eu,
Viva o crente
E o ateu.
Viva a vida
E viva a morte,
O azar e a
Boa sorte.

Viva enfim
Toda a carne,
Toda alma
E toda dor.
Tudo que se
Fez passado.
Tudo que

Exigiu amor. 

sábado, 28 de setembro de 2013

Amigo(?) é para essas coisas.

- Salve!
- Como é que vai?
- Amigo, há quanto tempo!
- ...
- Senta aí.
- Só um instante.
- Vai uma cervejinha?
- Não, obrigado.
- Tá dirigindo?
- Vendi o carro.
- Vai trabalhar mais tarde?
- Não, perdi o emprego.
- Já sei, a mulher não deixa.
- Nos separamos.
- Vai me dizer que não vai beber porque tá sem grana?
- É isso aí...

- Pois toma só um copo e escafede. Liseira pega!!! 

sábado, 21 de setembro de 2013

Crônica de Uma Sorte Anunciada.

Já abria a porta quando o telefone tocou. Àquela hora só podia ser mamãe, e era. Pediu que fosse lá urgentemente. Não adiantou dizer estar em cima da hora para o voo. Entre um fungado e outro disse que papai havia deixado um pacote para mim que deveria ser aberto imediatamente. Argumentar que estaria de volta à noite foi inútil. Já no táxi me ligou para o celular - não tinha chance alguma de fuga. Desempacotar o embrulho de papel madeira selado com fita adesiva exigiu a ajuda de um estilete bem afiado. O velho estava a fim de me dar trabalho. Mamãe repetia incessantemente que encontrara o pacote sobre o birô do escritório uma semana antes da morte dele. Havia um bilhete para ela dizendo que só entregasse o pacote naquela exata manhã bem cedo. Envolto em uma folha A4, um mil duzentos e cinquenta Reais. Na dita folha apenas uma ordem e um conselho.   “Compre um caderno e um lápis e confie na sorte”. Só podia ser brincadeira, mas acreditar que meu falecido pai me insultava nos últimos momentos de sua produtiva vida era impossível. A lembrança que a única livraria aberta àquela hora seria a do aeroporto me trouxe grande alívio. Beijei a testa materna e peguei o táxi. Antes de fazer o check-in corri para a livraria. Estava pagando quando escutei a última chamada de meu voo. A moça da empresa aérea, entendendo meus motivos, se desculpou pelo meu atraso e me botou no próximo voo com saída em duas horas. Sentei numa mesa do café. Um SMS do celular confirmou o débito de quinze reais e quarenta e quatro centavos de minha conta. Abri o caderno e comecei a rabiscar pequenos e inocentes versos, fazendo pequenas anotações e contas sem sentido. A notícia da queda do avião me abalou profundamente, mas quando a lotérica abriu tudo estava muito claro para mim. Risquei os números 1-2-3-4-5-6 da Megasena e sai da lotérica com o sorriso sem razão dos milionários e a cabeça cheia de ideias. 

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Imaginação

De onde nasce a imaginação?
De um sonho não realizado
Ou de um desejo escondido?
De uma palavra calada
Ou de uma ideia interdita?

Deve nascer do conjunto,
De tudo que vimos e ouvimos.
Nasce da possibilidade
Do que poderia ter sido.

Nasce do que somos
E do que queremos fazer
Com nosso futuro.
Nasce de um quintal
Que derrubamos o muro.


16.01.12  

sábado, 14 de setembro de 2013

Dívidas.

Não ligo para o que me dizem, desde que seja com carinho, com vontade de ajudar ou de pedir alguma necessidade. Se devo a alguém que me cobre honestamente, sem meias palavras, sem desconto, com  sinceridade e sem humilhação. Se me deve, não deixe que eu pense que esqueceu, nem fique me lembrando a todo instante. Não chore miséria, nem conte vantagem. Não me prometa juros exorbitantes, nem vire a cara quando me vir.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Lembranças

O tempo que 
não mais volta,
não é aquele 
que se perdeu. 
É tudo que já 
não faz falta,
mas sem ele 
ninguém viveu. 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

O Poder da Prece.

Seguiu os conselhos da vizinha e foi bater no culto. Fizera mais despesas que o necessário e estava atolada em dívidas. Só de cartão eram mais de dez mil. O colégio dos meninos estava atrasado já três meses, tivera que implorar para o diretor financiar a dívida. E o pior é que já não podia pedir para ninguém, todos já tinham participado com algum e não queriam nem ouvir falar de mais empréstimos:  Tá me achando com cara de otário, rasgou o cunhado quando ela chegou de mansinho, pedindo conselho em forma de notas de cem. Apelar para a mãe já não podia, o irmão tinha proibido a velha de soltar mais algum, embora aqui e acolá descolasse uns trocados para a merenda dos netinhos. O ex-marido continuava surdo a suas súplicas. Pagava a pensão e ela que se virasse. Sua nova família também tinha necessidades e uma mulher equilibrada na contabilidade da casa. O desespero faz milagres, pensou ela e se entregou de alma às preces, suplicando ao senhor que mal conhecia de perto, a solução de seus problemas. Depois da celebração a vizinha a chamou a conversar com o pastor, sugeriu que ela se abrisse, contasse tudo ao representante do senhor e seguisse seus santos conselhos. Saiu da igreja com a alma leve. Parecia que todos os problemas tinham sido desencarnados de seus ombros. Chegou à casa silenciosa, com fácies angelicais, motivo de espanto dos filhos famintos, e se recolheu a sua santa tarefa. Orou a noite toda, tudo prometendo, tudo pedindo. O sol que ainda nem bem nascera a encontrou de joelhos, o tronco debruçado sobre a cama, num cochilo divino, quando o irmão bateu forte na porta. Ainda no velório quis saber do primo corretor quanto achava que valia a casa da mãe. Dividiu a resposta por três e ninguém entendeu seu tosco sorriso.         

sábado, 10 de agosto de 2013

Renego

Renego
Todas as penas,
Todos os dogmas,
Toda novena.

Renego
Todo fingir,
O puro querer,
Tolero o mentir.

Renego
O carnaval
Fora de Fevereiro,
Toda ânsia de ser
Forte e verdadeiro.

Renego
O amor
Sem dor e sem medo,
Tudo quanto
Me peça segredo.


08.08.13

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Esvaziando

Cheio de ideias
E das ideias.
Cheio de vida
E da vida.
Cheio de solidão
E da solidão.
Cheio de amor
E do amor.
Cheio de tudo
Num vazio

De dar dó.

sábado, 27 de julho de 2013

Companheira.

Escuto o silêncio 
da madrugada
e me sinto bem
por saber que
na minha solidão
habita um outro
alguém. 

Os Gatos

Em um castelo arruinado de um país miserável viviam dois gatos. Todo dia, por vezes antes do sol nascer, a empregada enchia duas tigelas de leite fresco para eles. Os gatos davam um ou dois goles do branco alimento e partiam céleres e alegres aos suculentos ratos que, como todo mundo sabe, nunca paravam de se multiplicar. Durante anos os donos da propriedade nunca tiveram o dissabor de dar de frente com os indesejáveis roedores, mas como acordavam muito tarde poucas vezes davam com nossos dois felinos personagens. Até que a crise sócio-econômica-política mundial obrigou a família a vender a casa. Os novos donos tão logo se instalaram fizeram uma auditoria na despensa e logo perceberam que havia alto consumo de leite para tão pouco gato. Ou os bichos bebiam tudo ou nada de leite. Informados pela empregada um gato olhou pro outro, que miou de volta: “Vamos beber tudo e garantir a boia, afinal não é todo dia que os ratos dão sopa”. Quando os ratos roeram a roupa do  residente recém-chegado, este correu à cozinha em busca de ajuda. O gato mais velho, com o diário oficial na mão foi logo esclarecendo: “Sinto muito, mas estamos regimentalmente de férias”, e se virando para a empregada pediu o terço adicional de leite. 

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Idiossincrasias

Deve ser muito chato viver com quem gosta de escrever. Difícil entender que este não possa parar de olhar para a tela do computador e conversar naturalmente, dando-lhe toda a atenção que merece e exige, e compartilhe do assunto em pauta nos mais ínfimos detalhes. Dividir a atenção entre a imaginação, o transcrever em palavras, frases e parágrafos, o digitar, ver os erros, corrigir os mal entendidos, julgar o resultado, rever possibilidades, vislumbrar alterações mais poéticas e instigantes, fazer comentários ou sugerir referências, decidir entre ser direto, dar um toque de humor ou simplesmente ser ácido e certeiro, e a conversa sobre o cotidiano, a diarreia da filha, a lâmpada que resolveu não acender, o refrigerador que está criando gelo, os problemas no trabalho e o vizinho que reclama do armador, parece coisa simples, tarefa de principiante, papa mole de engolir. Quem disse que é fácil entender o bicho homem e suas idiossincrasias?

sábado, 20 de julho de 2013

Wave

A onda que
Me leva
Me traz
Até você:
Cantinho
Aconchego
De cheiro
Maneiro
Exalando
Prazer.

sábado, 29 de junho de 2013

sexta-feira, 21 de junho de 2013

sábado, 8 de junho de 2013

Desculpa não ser aquele que tu quis.
Se não fiz o que podia para te fazer feliz.
Se não tive a paciência para te ouvir.
Se te interrompi com minha arrogância
de mestre diante da aprendiz.
Se me calei quando devia dizer bis.
Se devia perdoar ao invés de reclamar.
Se não pude compreender o que devia estar
Bem debaixo do meu nariz.

Três + Cinco

Tenho três minutos de nada para preencher antes que comece ora preencher antes dr antes de  tempo da obrigação. Três minutos sem passado, como se isso fosse possível, como se não carregasse em mim todo o peso que acumulei nas horas que antecederam estes reles três minutos de pura serenidade.





Cinco palavras

Que me olham.

Cinco desejos

Que não me 

Deixam mentir:

"Comer

Beber,

Dormir

Não

Pagar".



sábado, 4 de maio de 2013

Náusea

Ao acordar
bebi o meio copo
de cerveja que
ficara esquecido
ao pé da cama. 
Lembro que vomitei
e no instante 
seguinte me veio
a lucidez daqueles
que ninguém 
ama.

sábado, 27 de abril de 2013

Obesidade


Nunca passei fome. A geladeira de minha infância estava sempre repleta de refrigerantes, pudins, sorvetes, sucos e tudo mais que enche de felicidade a vida de qualquer criança. Comia sem parar para orgulho desconfiado de meus pais. Os movimentos maxilares eram harmônicos e simultâneos a todos os atos naturais e obrigatórios do dia. Quando ficava doente então é que a coisa desandava. Passava o dia na cama absorvendo calorias que se acumulavam sem pena nas minhas formas. Nem o estirão da adolescência conseguiu esticar a redondeza de meu corpo. Discriminado pelo IMC me reclui nos estudos. Devorei tanto chocolates quanto apostilas do pré-vestibular e entrei sem dificuldade na faculdade. Foi onde conheci a Rosinha, que de pequena só tinha o nome (Rosinha não era apelido, era o nome dela mesmo). Encontrei nela a minha bola-metade. Assistíamos às aulas degustando bombons, lanchávamos pensando no almoço, sempre lado a lado. Transávamos, entre um biscoito e outro, duas noites na semana, quando fingíamos estudar no meu quarto até tarde, e nos finais de semana quando os pais dela fugiam para a casa de campo da família e deixavam a filha com a geladeira repleta de guloseimas a compartilhar comigo. Quando percebemos que o avolumado em sua barriga não era fruto apenas de nossas libações a mesa, era tarde demais para o aborto. Formamo-nos com louvor unânime dos professores e de nossos colegas. Morri de um infarto fulminante na festa de formatura, enquanto dançava com a colega mais bonita e esbelta da turma. Rosinha ainda tentou respiração boca-a boca, mas era tarde demais para os meus 150 quilos de vida. Rosinha imputou à comida toda a culpa daquela desgraça. Passou a fugir das calorias que me matara e dos homens que a cercavam cativados pela formosura que ela ficou. O único homem com quem dividiu sua cama foi o nosso filho. Este, apesar da luta da mãe, ganhava quilos com a facilidade genética herdada dos pais. Quanto mais ele crescia mais ficava parecido comigo, para desgosto da mãe, que em vão tentava lhe impingir um regime de fome. Quando completou 15 anos começou a emagrecer. A alegria da mãe só acabou no dia que o levou ao hospital e descobriu a Diabetes que o matou faltando três dias para completar 16. Até hoje Rosinha só come alface, não bebe nada que tenha álcool, não fuma, não faz sexo, acho que se masturba vez ou outra. Diz que viverá até os cem.      

domingo, 21 de abril de 2013

Dois Tempos.

O tempo é o intervalo entre dois atos de desamor.

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Perdi o tempo que 
precisava para 
fazer o que 
não queria.
Saí mais cedo
de casa
deixando a luz
acesa na sala
e a louça suja na pia. 

sábado, 20 de abril de 2013

BemMal


Quando não há 
mais objetivos
e tudo a frente
parece mera-
mente igual,
nada importa 
além do ca-
minho e não
há diferença
entre o bem 
e o mal. 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Na rede da sala.


Baixei a borda da rede e vislumbrei o ângulo oposto da sala quatro por quatro sem reboco, piso e teto  crus. Da porta da parede esquerda uma jovem de cabelos louros mal lhe roçando os ombros entra rodopiando, alheia a meu olhar. Quase não se nota o insípido balanço de seus seios despudoradamente expostos, e da calcinha cor de pele seus pelos pubianos se mostram pelo relevo e não pelo contraste de cor. Um barulho me rouba a atenção e ainda consigo ver pela porta da direita a sola gasta dos chinelos do homem que despenca vão abaixo. Antes de poder reagir a qualquer uma das ocorrências o alarme do despertador me avisa que tenho duas meninas que acordar e mandar para o colégio.   

sábado, 23 de março de 2013

Swing


O princípio do ocorrido foi os elogios mútuos às mulheres enquanto elas estavam no toalete. Recebidas com largos sorrisos ficaram meio sem jeito, talvez até imaginando coisas, pois nenhum foi capaz de explicar-lhes o inefável ar de felicidade. Saíram do restaurante de braços dados, cada qual com seu cada qual, até que a força oculta que pairava no ambiente fez das suas e não sei em que altura do caminho até o apartamento do casal que morava mais próximo e onde combinaram tomar um último drinque, deu-se a troca. Parecia que tinham acumulado assunto durante o período que saiam juntos para se divertir. Impossível imaginar do que tanto conversaram, mas não deve ter sido sobre futebol, cerveja, vestidos ou sapatos. Bastante improvável que tenha sido filosofia ou política, muito menos amor. Chegaram ao apartamento cheios de vontade, mas sem pressa. Abriram uma garrafa de champanhe, brindaram à saúde e à vida e se recolheram às suas respectivas alcovas, sem nenhum comentário desnecessário. Quando ela saiu do quarto do adormecido anfitrião encontrou-o na sala, olhando pela janela a alvorada que se anunciava tênue e fria por entre pesadas nuvens de verão. 

sábado, 16 de março de 2013

Gramática improvável


Quando é um tempo
Que não quer chegar.
Porquê é uma pergunta
Que não sei fazer.
Será é uma possibilidade
Difícil de esperar.
Com é uma união
Improvável de acontecer. 

sábado, 9 de março de 2013

Vento de Março

O mais sábio dos homens me pediu para ficar e fazer tudo do jeito que só eu posso querer fazer. Não pisquei, nem dei pista das minhas futuras intenções. Apenas me calei e no silêncio todas as minhas dúvidas se dissiparam, perderam 
a razão pela qual foram construídas. O mais sábio dos homens deixou uma lágrima cair de seus olhos, inspirou longa e serenamente e sem dizer palavra foi se apagando, tal qual a verdade na consciência humana, até sumir 
definitivamente. Sem ter a quem pedir licença ou perdão, abri os braços e me deixei levar pelo vento.   08.03.13 

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Portão Fechado


Juro: já simpatizei Corinthians. Quando menino queria ser goleiro. Passava muito do meu tempo livre pegando bola chutada por um tio que morava conosco e adorava futebol, especialmente o Fortaleza. Queria ser o Leão, goleiro da seleção no início dos anos setenta. Como ele jogava no Palmeiras, tinha especial simpatia pelo time verde e achava Ademir Da Guia o melhor jogador do Brasil e do mundo. Mesmo assim vibrei muito quando o Timão ganhou um título paulista após anos de jejum. Não me perguntem o ano nem o nome do zagueiro que fez o gol redentor, pois nunca me lembro, apesar das inúmeras vezes que ouvi dos conhecidos conhecedores da matéria futebolística a quem conto essa história. Meu pai me levava sempre para ver os jogos do Fortaleza e mesmo nos clássicos com o eterno rival Ceará, nunca presenciei brigas no estádio. Lembro que eu e meus amigos ficávamos na esquina de casa vaiando as bandeiras alvinegras e aplaudindo as tricolores. Era o máximo de agressão que se permitia e existia, pelo menos de meu conhecimento e prática. Escavinhando a memória lembro o banho de xixi que papai levou no jogo horroroso da seleção brasileira contra o Uruguai. Papai ficou uma fera e saímos antes do final sem nenhuma queixa já que nem o gol arranjado de pênalti deixou satisfeitos os indignados e espremidos torcedores. Explico que minha atual antipatia gratuita pelo timão se deve ao fato de ter visto uma cena de selvageria nas arquibancadas de um estádio onde um torcedor corinthiano chutava sem piedade, possuído pelo mais fervoroso espírito do mal, a cabeça de um rapaz, nem lembro mesmo a cor de sua camisa, devia estar mesmo vermelha de sangue, deitado sobre o granito duro daquela arena de espetáculo esportivo. Analisando aquele episódio sob a luz da razão sei que o ato criminoso não pode ser considerado monopólio da torcida do time do Parque São Jorge, mas entendam que a imagem marcou tanto minha jovem e inocente cabeça que até hoje ainda a trago na memória.       

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013


 A prática da pediatria me faz conviver com essa realidade todo dia. Não é raro eu dizer que gostaria que os exames dos meus "gordinhos" dessem alterados, só para ver se os responsáveis resolvessem enfim tomar uma atitude, assim como aconteceu com a mão de uma das meninas do filme, que entendeu perfeitamente a situação e passou a se alimentar bem. Penso que o governo tem todos os motivos para controlar a propaganda das indústrias dos falsos alimentos, com o simples, puro e real argumento de problema de saúde pública. Achei interessante a nutricionista americana explicando as origens no pós-guerra da industria dos fast-food. Pena que a economia se intrometa tanto assim na vida e no corpo das pessoas, mas afinal, onde ela não se intromete? Só resta enaltecer iniciativas como essas que ajudam a difundir a verdade por trás da propaganda e do consumismo exacerbado. Marcante a cena inicial quando um carrinho cheio de refrigerantes adentra uma comunidade ribeirinha( norte do Brasil?), onde as frutas e verduras, pelo alto custo e fácil deterioração, não chegam. Assistam o filme no link http://www.muitoalemdopeso.com.br/.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Nuvem Negra


Tudo começou com um vento frio e sincero trazendo nuvens caladas que apagaram o céu, mas não molharam o chão. Os olhos se encheram de lágrimas e os pelos se arrepiaram com o medo do sombrio estio. Apesar do espanto nenhuma voz se ouviu. Só um gemido, um tépido e dolorido gemido brotou da garganta do único ser estupefato que entendeu a razão de tal castigo.
14.02.13

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Sonhos Possíveis


Não quero ter
Que terminar nada.
Antes começar tudo
Sem a ânsia de
Um dia ser feliz.
Pouca aventura
Que sonhei
Passou um dedo
Além do meu
Tão próprio nariz.
17.01.13

domingo, 3 de fevereiro de 2013

O advogado que queria ser vaqueiro - Apresentação do livro "Reminiscência de um Idealista"


Este livro foi escrito por um menino vaqueiro que com ajuda de seu primo Dr Nelson de Andrade Sales, Médico formado na primeiro faculdade de Medicina do Brasil, a da Bahia, e a quem meus pais me ofereceram como afilhado, formou-se advogado no ano de 1954. Não posso dizer com certeza, talvez sua mulher e companheira nos possa depois nos contar, quando nasceu em sua cabeça inquieta a ideia de escrever suas memórias. Sei que muitas foram as noites que acordei com o sussurro frenético de sua velha e resistente máquina de escrever que ele dedilhava usando os somente os dois indicadores.  Houve também muitos períodos de silêncio, prováveis tempos para meditação. Aquelas páginas foram assim ficando amareladas, enquanto ele ia acrescentando uma a uma até se acumular num grande maço de papel que não quis sair da gaveta enquanto ele ainda vivo. Será que ele ainda não estava satisfeito e achava que tinha mais algo para contar? Nunca saberemos. Ouvi dele muitas histórias que não encontrei neste livro. Deve ter as considerado indignas de serem lembradas ou mais provavelmente as tenham condenado ao esquecimento. Não sei se será possível esquecê-las, talvez eu as conte um dia em forma de ficção assim como ousei fazer com uma de suas primeiras reminiscências, a qual intitulei:
O advogado que queria ser vaqueiro:
Deixando a Fazenda Corrente
As lágrimas caíam e escorregavam pela crina lustrosa do cavalo baio. De sua boca saia uma única palavra: “não”. Não queria deixar a fazenda, a mata seca e fechada da caatinga, as caçadas noturnas, os buracos de peba, o cheiro do curral, as vacas e seus bezerros, as disparadas dos cavalos, os jumentos e suas cargas d’água, os banhos na lagoa grande, os cachorros sempre em volta do alpendre onde o pai conversava com os cumpadres e caboclos, a mesa grande onde se servia todo e qualquer filho de Deus que se encostasse por lá antes mesmo da família, e principalmente, sua mãe. Por que tinha de estudar se tudo que gostava estava ali, se podia ser feliz como tantos e tantos que nasceram e morreram ser sequer assinar o nome, sem nunca ter feito uma conta. Ouvia histórias de professoras carrancudas e suas palmatórias sem perdão, de manhãs inteiras sobre carteiras duras, com sapatos apertados e bico calado, olhando sem pestanejar para uma lousa preta enrabiscada de letras que juntas formavam o tal alfabeto que todos tinham de decorar se não quisessem sentir o peso da palmatória. O irmão seguia silente, satisfeito, sorriso esboçado na esperança de aventuras por viver; boi inocente a caminho do abatedouro, pensava entre um soluço e outro. Na frente do comboio seguia o pai, fazendeiro simples, calça curta mostrando as chinelas de couro cru, chapéu de palha esfiapado e ressecado pelo sol inclemente, cigarro de palha na boca que lhe tingia o bigode de amarelo, pequeno chicote na mão direita enquanto a esquerda guiava o cavalo alazão. Cansado os ouvidos, puxa as rédeas do animal, espera o filho inconformado e se deixam ficar no fim da procissão. Sem que o outro ouça promete ao menino que deixará o irmão na cidade e o trará de volta para a fazenda. A palavra do pai, lei maior não conhece, lhe devolve toda a alegria dos primeiros onze anos de vida. Em breve descobrirá que o amor paterno guiado pela consciência e o dever de dar o melhor para os filhos é maior que qualquer pequena mentira.
Há quatro exatos anos, era um domingo triste e chuvoso, quando ele nos deixou. Estes papéis ficaram guardados na velha gaveta de seu grande Birô até hoje, quando vos apresentamos sua história. Termino dando voz ao autor: “Se, ao lerem estas Reminiscências, encontrarem alguma razão para segui-las como exemplo de conduta, que o façam como eu o fiz: com ideal grandioso e puro”. 

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Reminiscências de um Idealista - Livro de Memórias de Meu Pai


Ter pouco mais que a metade dos anos que o autor presenteou o mundo com sua existência me concede o direito de prefaciá-lo não como filho, mas como um adulto crítico. Denunciar-lhe os defeitos é, entretanto, tarefa impossível diante do singelo e inesquecível enredo que escreveu com a caligrafia do amor puro e incondicional. As estórias por vir só há pouco li no papel, embora possa ouvir o teco-teco (como ele às vezes me chamava) de sua velha máquina de escrever nas madrugadas de minha infância, mas tive o privilégio de ouvi-las da boca do próprio narrador; quase nunca dirigidas diretamente a mim, mas sorvidas com a avidez de menino curioso, enquanto as contava aos pacientes e admirados ouvintes. Muitas sei de cor, poucas se perderam nas curvas da memória, mas espero que todas sirvam de ensinamento para quem acredita no amor e no ideal como forças motrizes de todo e qualquer tempo. 

sábado, 26 de janeiro de 2013

Homem oculto


Sou o homem
Que passa
Correndo por
Detrás daquele muro.

Por isso
Não me vejo,
Não me basto,
Não me iludo.

26.01.13

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

É preciso (II)


É preciso:

Procurar
O eterno
No finito.

Descobrir no feio
O que há
De bonito.

Entender que
Há algo certo
No errado.

Viver toda verdade
Com o coração
Calado.

23.01.13

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Solidão 4


Não tive irmãos.
Perdi moço meus pais.
Minha mulher não resistiu 
ao terceiro parto.
Meu primogênito foi assassinado.
O avião que levava minha menina
Para a Disney enterrou-a no mar.
Os poucos amigos me
Deixaram suas saudades.
Não tenho para quem dar,
Nem com o que gastar
Tudo que guardei.
Só, entre as paredes
Deste apartamento
Um por andar,
De frente para o mar,
Espero o último toque da campainha.
Não lembro a última
Refeição que fiz.
Espalhadas no tapete
As garrafas vazias do
Álcool que elegi como
Meu último e fiel companheiro.

2004 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Prosopagnosia


Não reconheço teu rosto,
Mas teu jeito de olhar,
Tua voz me pedindo um beijo
Em meio a mil lamentos,
O cheiro doce de banho
De tua pele espelhando o luar.

Se passar por ti
Esquecido de meu desejo,
É que não reconheci
Em tua nova forma de ser
O que já não me queres dar
E que guardas para outro amor. 

sábado, 12 de janeiro de 2013

Caricatura



Sou um idiota vestido de homem cabeça desprendido de quase tudo que o consumismo fácil pode dar. Ontem fiz minha caricatura e me descobri “velho e acabado” e honestamente horrível. Mesmo assim resolvi mostrá-la junto com a convicção de que não sou o que aparento e mais do um mero “ponto preto posto por uma mosca no teu pensamento”. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Culto


O movimento é intenso, um entra e sai constante, meninos correm pelos espaços entre as cadeiras de plástico. Enquanto o pastor prega no palco, muitos gritam aleluia e outras manifestações de fé e amor ao Senhor. O clima é intenso para quem não está acostumado e num passado distante frequentou as anódinas missas católicas. Muitos se ajoelham e se debruçam sobre a Bíblia deitada no assento das cadeiras. Um ou dois homens de vermelho, igualmente ao pastor (depois fiquei sabendo que era na verdade um obreiro), me estendem a mão e oferecem a paz do senhor. Dou meu melhor sorriso amarelo e ouso retribuir a saudação, embora saia sem graça de minha boca sem fé. Um inquieto rapaz senta na minha frente, muda constantemente a cadeira de lugar, mexe a cabeça insistentemente, parece que esta conversando com alguém ou mais provavelmente com ele mesmo. Silvana me chama a atenção para seus dedos em forma de baquetas de tambor, diz ser sinal de viciado em crack. Minha preocupação não aumenta e sim minha curiosidade. Num supetão ele se levanta e se aproxima de uma jovem que esta duas cadeiras ao meu lado direito. Põe as mãos em concha ao redor de seu ouvido e lhe faz uma secreta pregação que termina com um sonoro berro, felizmente abafado pelo coro que canta em honra do Senhor. Ele volta à sua cadeira em minha frente e a jovem franzina permanece em pé, olhando em frente, sem abrir a boca, talvez orando pela paz que tanto anseia, ou quem sabe desejando o fim próximo da própria vida. Imagino uma lágrima retida que não ousa sair. Com sorte seu algoz não dure muito e ela encontre um bom pai entre os irmãos em Cristo para sua filha que daqui a pouco estará rodopiando feliz nos braços do desnorteado e amoroso pai. 

terça-feira, 8 de janeiro de 2013



Tio Bebeto sempre me concedia sua benção antes de eu próprio pedi-la ou de lhe dizer qualquer coisa. Nunca considerei como uma crítica, pois seu largo sorriso sempre vinha depois, mas como sua maneira peculiar (nenhum tio jamais fez o mesmo) de desejar minha felicidade. Sei que não o fazia somente para mim, mas para todos os filhos, sobrinhos e netos. Era verdadeiramente um homem de família. Soube cultivar a harmonia entre os irmãos como nenhum outro e era único na sua prática de visitar regularmente a todos. Nossas conversas eram quase sempre longas e divertidas, muitas delas repetidas, assim como as de seu irmão quase gêmeo que tive a sorte de ter como pai, mas sempre me enchia a alma com a doce experiência de seu amor compartilhado. Seu riso farto e sua receptividade às minhas irreverências mostrava bem o homem que respeita e se orgulha de sua família, principalmente dos filhos que nunca cansou de elogiar. Dizia que já morrera várias vezes e voltara sem ter história para contar do mundo de lá. Ontem não voltou, mas sua história está perpetuamente gravada com letras carinhosas em minha alma, pois poucos são capazes de escrever tão bem com a gramática do amor. 

sábado, 5 de janeiro de 2013

A Morte é 
um fato
coberto 
por cimento. 

A verdade é
um desejo,
fruto do 
enamoramento.

05.01.12

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Perdão


Com o passo
Perdido no
Passado que
Não pude
Perdoar,
Penso no
Pulo pro
Fundo do poço
Que ficou
Solto no ar. 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Tempo



Sou o tempo que vivi,
Vivo que o tempo que ganhei.
Choro e sofro por saber
Que meu sonho
É o tempo que não terei.

Tempo, oculto amigo,
Chega sem permissão
Para nos dar castigo.
Passa sem ser notado
Abandona-nos sem abrigo.

Tempo é ilusão de mortal,
Sempre a procura de Tempo
Para namorar,
Para descansar,
Para brincar,
Para estudar.

Tempo:
Desculpa atroz
Para a inútil pretensão
Da eternidade.

Tempo:
Ilusão do infinito,
Desejo incontrolado,
De não morrer.

2004