terça-feira, 19 de maio de 2026

Tanquinho

 Quando alguém descobre da minha inveterada apreciação da loura gelada, é quase automático a admiração por minha tão inócua barriga. Como se uma coisa levasse a outra; como se ser tricolor me forçasse a secar os alvinegros. O certo é que apesar dos elogios por me manter sempre em forma, não nutro uma relação de paz plena com minha adiposidade abdominal. O desejo de subtraí-la com um puxão peremptório e efetivo só perde para a eloquência inebriante de um copo borbulhante, encimado por branca espuma. Botar a culpa na bichinha é de uma covardia indefensável e que não ouso fazer. Mais fácil culpar a colher a mais de farofa de linguiça, o indispensável caldo de feijão, o tijolinho duplo de chocolate na sobremesa que fugir da irrealidade do torpor da cerva. Afinal barriga tanquinho é para quem não tem torneira que preste.  

Suspiro

 Quando a gente menos pensa parece que acabou. Não há sentido em explicar o que ninguém quer ou vai entender. Um suspiro fala mais fundo que qualquer explicação. Reféns da impura verdade, damos passos tortos, escolhemos o lado invariavelmente errado, para terminar no que podia ser, sem o poder de tirano destino, mas solenes escravos das nossas decisões.

Manias

Manias se fazem sem querer. 

Têm um que de instinto

que fingem desconhecer. 

E quando menos se espera

foi só um doce e puro prazer. 

Criação

O acaso é

um copo de vidro

prestes a se quebrar. 


Pode frustrar uma 

sede ou fazer

uma semente brotar.